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“A Declaração de Coimbra”

Coimbra recebeu, no início do mês, dois encontros internacionais de organizações médicas, o Fórum Ibero Americano de Entidades Médicas (FIEM) e o Conselho Europeu das Ordens Médicas (CEOM), que reuniu, pela primeira vez, em Portugal.

Na sequência da reunião do FIEM foi elaborado um importante documento de impacto internacional: a “Declaração de Coimbra”. Neste documento foram focados aspetos importantes da atualidade da saúde, designadamente a excessiva medicalização da vida, causada pela divulgação publicitária de múltiplas fármacos de venda livre e sem efeitos claramente comprovados, o que tem contribuído para aumentar a frequência e a massificação das consultas médicas sem nenhuma vantagem, nem para o doente nem para o sistema de saúde.

A publicidade enganosa nos meios de comunicação social por parte das empresas farmacêuticas e a sua excessiva presença nos meios de comunicação social com escasso controlo é, aliás, apontada como tendo «uma substancial incidência na medicalização da vida, e tem de ser em muitos casos expressamente denunciada e corrigida».

Vários outros temas foram abordados nesta declaração, tais como as consequências das mudanças climáticas na saúde, a defesa dos direitos fundamentais ligados à saúde e à dignidade do ser humano, as exigências de qualidade da prestação dos cuidados de saúde e da formação dos profissionais. Não foi esquecida, ainda, a crise no setor da saúde da Venezuela. Na reunião do FIEM foi também aprovada uma Carta de Identidade e Princípios da Profissão Médica Latino-Iberoamericana que foi recentemente entregue ao Papa Francisco, em Roma, numa audiência privada.

Outro tema abordado – e de inegável importância – foi o pedido que será feito à UNESCO para classificar a relação médico-doente como Património Imaterial da Humanidade. A comunidade médica internacional está empenhada nesta tarefa. E não é por acaso. É precisamente numa altura de crise mundial e de dificuldades acrescidas que é preciso não esquecer a relação médico-doente. Esta relação ainda é um dos bens mais importantes da medicina moderna e que jamais poderá nem ser desprezado, nem esquecido.

Mas, mais do que uma responsabilidade dos profissionais de saúde, cabe a todos preservar esta relação essencial para a qualidade dos cuidados de saúde e para a sua humanização.

Por: Carlos Cortes

* Presidente do Conselho Regional do Centro da Ordem dos Médicos

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