Arquivo

007 encontra Dorian Gray e Steve Jobs

Era a grande discussão cinéfila lá de casa: o meu pai adora os filmes do 007, eu detestava aquele universo pomposo. Não compreendia o fascínio que Bond, esse bebedor de chá, exercia sobre o meu velho e todos os homens daquela geração. Os filmes de Connery, Roger Moore e Pierce Brosnan eram encenações postiças, com enredos inverosímeis, engates inconcebíveis e vilões infantis. Sim, infantis. Os vilões do 007 tinham a densidade dos “maus” dos desenhos animados. Tudo aquilo me parecia um desenho animado para gente grande: sem nunca sujar o fato, Bond destruía os vilões com a mão direita, dava um orgasmo pombalino à Bond Girl com a mão esquerda e, com a ponta do nariz, segurava o gin ou o chá, que, claro, nunca entornava.

A nova série interpretada por Daniel Craig e realizada por Sam Mendes e Marc Forster reconciliou-me com o herói do meu velho. Os filmes são mais negros, quer no aspeto formal, quer na composição das personagens

Mas agora alguma coisa mudou. A nova série interpretada por Daniel Craig e realizada por Sam Mendes e Marc Forster reconciliou-me com o herói do meu velho. Os filmes são mais negros, quer no aspeto formal, quer na composição das personagens. E estão a dizer-nos qualquer coisa. Não são apenas divertimentos à Jason Bourne. Por exemplo, “Skyfall” (vi há dias na SIC) é uma parábola sobre o poder. O vilão interpretado por Javier Bardem, Mr. Silva, tem complexidade, porque é um reflexo de M., a líder do MI6 interpretada por Judi Dench. A fealdade moral e física de Mr. Silva (ex-agente do MI6) é o espelho de Dorian Gray onde M. pode ver o lado sanguinário das suas decisões. Ser um líder não implica necessariamente vender a alma ao diabo, mas exige uma moral maquiavélica que tem custos morais para o “indivíduo” que está antes do “político”. É por isso que “Skyfall” revela o nome cristão de M.: Emma, uma pessoa desgastada por décadas de decisões difíceis, uma alma marcada pelo peso da responsabilidade que ela própria resume desta forma: “entreguei um homem para salvar cinco e conseguir a paz”. Mas entregar esses homens, esses cordeiros, deixa cicatrizes morais. Dentro dos limites do blockbuster, “Skyfall” é uma reflexão sobre a condição trágica do poder.

Além disso, é um grito analógico contra a civilização da internet. No enredo, o MI6 está a ser criticado pelo primeiro-ministro, que já não vê utilidade neste bando de espiões; o governo acredita que já não precisa de homens no terreno como antigamente, julga que a “era dourada da espionagem” acabou e que devemos confiar apenas no poder da tecnologia, na espionagem eletrónica, drones e afins. Não por acaso, Mr. Silva é um geek genial que assalta a sede do MI6 através da macumba eletrónica. Para conseguirem uma vantagem sobre Mr. Silva, Bond e M. só têm um caminho: voltar ao passado, apagar a existência de Steve Jobs e afins, encontrar um campo de batalha onde a internet e a tecnologia sejam uma irrelevância. É assim que ficamos a conhecer a casa de família de Bond perdida nas montanhas da Escócia. Nesse cenário setecentista, com Rob Roy escondido algures, Bond, M. e o velho caseiro combatem Mr. Silva com caçadeiras, bombas artesanais feitas com lâmpadas, dinamite e com o boa e velha manha. É a revolta do mundo analógico contra a petulância virtual.

O meu pai já pode gostar do seu bebedor de chá.

Por: Henrique Raposo

Sobre o autor

Deixe comentário