Arquivo

O apagão

Na passada terça-feira a Guarda ficou às escuras durante cerca de 12 horas

Com o pôr do sol chegou a escuridão. Pouco depois das nove e meia da noite da última terça-feira, a cidade da Guarda ficou sem electricidade. Após uma primeira interrupção de alguns minutos, as luzes apagaram-se mesmo e pela noite dentro. Foram horas de escuridão como há muito não se via na cidade mais alta. Foram cerca de doze horas sem electricidade.

Num primeiro contacto com o serviço de informações da EDP ficou a promessa do restabelecimento de energia eléctrica à cidade para pouco depois das 23 horas. «Há uma avaria na sub-estação da Guarda», explicaram, adiantando que o serviço deveria ser restabelecido em pouco mais de uma hora. Mas a cidade continuou completamente às escuras passado dessa hora. Contactada a EDP Centro foi-nos explicado que um transformador da sub-estação da Guarda teria começado «a deitar fumo», pelo que o fornecimento de energia foi interrompido. Segundo fonte da empresa de electricidade, «os piquetes estavam a tentar resolver a avaria», mas o problema mantinha-se às 5 horas da madrugada. Os técnicos da EDP terão então iniciado um processo de «transferência» de energia de outras redes de distribuição, pois a sub-estação da Guarda estava incapacitada. Este é um processo de fornecimento gradual, «extremamente lento», em que a potência é inicialmente mais débil. Ainda assim, alguns minutos depois da meia-noite, a electricidade voltou a chegar a algumas zonas das proximidades da cidade, mas na Guarda os interruptores continuavam a não poder ser conectados.

Uma hora depois fez-se luz na Sequeira, no Bairro de Nossa Senhora de Fátima e em meia dúzia de candeeiros da Viceg. Mas, em grande parte da cidade, a escuridão só era cortada pelas luzes dos automóveis. Situação que se prolongou pela noite dentro. Entre os mais penalizados encontraram-se aqueles que necessitavam sair em viagem e que não podiam abastecer os seus veículos de combustível, pois as gasolineiras ficaram todos fora de serviço. Toda a actividade de restauração encerrou antes da hora e algumas empresas suspenderam a sua actividade por falta de electricidade. Esta situação anormal, e que há muitos anos não se verificava na cidade, terá causado prejuízos em muitos sectores. Inclusivamente, a redacção de “O Interior” teve que se mudar de armas e bagagens para a periferia (Sequeira) para ultrapassar este problema e fechar esta edição.

A procissão de velas

O recurso à tradicional luz da vela voltou a ser a opção em muitas casas da Guarda. Não foi o regresso à idade das trevas, foi apenas a forma de iluminar o lar de muitos guardenses. Entretanto, pelo escuro da cidade irrompeu a procissão de velas, nunca antes tão justificada, ou pelo menos há muitos anos. A partir da Igreja da Misericórdia os fieis percorreram algumas artérias da cidade, às escuras, rezando o terço do encerramento do “Mês de Maria”. Enquanto os devotos oravam por Maria, os condutores de automóveis, incrédulos, deparavam-se diante dos faróis com a procissão, sem a sinalização de qualquer polícia. As velas eram o único sinal da sua presença e a única luz no centro da cidade.

Muitas pessoas saíram à rua, em automóvel, surpreendidas com a falta de electricidade tão prolongada. Mas o recolher acabou por ser muito mais prematuro que o normal. A Guarda viveu terça-feira um autêntico apagão, uma noite longa, que fez recordar o quanto era difícil a vida há alguns anos atrás. Vista ao longe, a cidade tinha desaparecido, sobressaindo apenas uma ligeira silhueta do monte por onde se espalha.

Luís Baptista-Martins

Sobre o autor

Deixe comentário