Um sentimento de revolta, dor, consternação e indignação apoderou-se na última terça-feira da cidade da Guarda, onde mais de um milhar de pessoas participaram no funeral de António Carlos Abrantes, agente da PSP, assassinado no último domingo na Amadora. Nas cerimónias fúnebres marcaram presença muitos elementos da PSP, de várias zonas do país, e de outras forças de segurança, bem como o secretário de Estado da Administração Interna, José Magalhães, que se recusou a fazer declarações. Familiares e colegas do agente falecido, de 29 anos, reclamam justiça e a adopção urgente de medidas que garantam melhores condições de trabalho às forças de segurança.
Asdrubal Gomes, tio do polícia morto, ficou bastante consternado com a notícia recebida na madrugada de domingo. «Era mais do que um sobrinho para mim. Dava-se bem com toda a gente, tinha um grande relacionamento com a minha família e com os meus filhos. Foi um choque muito grande», disse visivelmente emocionado. O familiar do agente falecido vê com preocupação o futuro das pessoas que estavam mais próximas de António Abrantes, já que a «situação da esposa vai ser complicada e sobretudo dos pais, que estão a sofrer muito, não sei se conseguirão recuperar tão depressa deste choque», frisou. Asdrubal Gomes lança fortes críticas ao actual estado da segurança em Portugal: « A continuarmos assim, se não mudarem as leis e não derem mais poder à polícia, não sei onde é que isto irá parar», alerta. Actualmente, os polícias «não têm meios para se defender» e os «criminosos têm armas melhores». Para o homem que matou o sobrinho, defende que «nestes casos devia haver pena de morte», discorda. «Não é justiça aplicar-lhe 20 ou 25 anos depois de matar dois rapazes, porque qualquer dia vem cá para fora e volta a fazer o mesmo», contesta.
O caixão foi transportado em ombros por agentes da PSP no percurso de cerca de 500 metros que separa a Igreja da Misericórdia do cemitério municipal, sendo que os colegas da esquadra de António Abrantes apresentaram-se com uma faixa preta sobre o crachá, como forma de luto. A direcção nacional da PSP esteve representada pelo superintendente chefe Coelho de Lima. Consternados pela morte de mais dois colegas, os polícias portugueses voltam a reclamar melhores condições de trabalho. António Amoroso, dirigente da Associação Sindical dos Profissionais da Polícia (ASPP), recorda que há muito que andam a pedir para o Governo actuar com rapidez no que respeita às forças de segurança, «que têm sido esquecidas», como aconteceu na última campanha eleitoral. «Agora é que se fala disso, numa altura de infelicidade para o nosso colega, a sua família e para a PSP», frisa, esperando que o assunto «não caia novamente no esquecimento. De resto, mostra-se esperançado de «que desta vez façam alguma coisa pelas forças de segurança e não haja necessidade de outra tragédia para se falar nesta questão». E para infortúnio dos dois agentes assassinados, «mais uma vez ficou demonstrado que os meios adequados, de que os políticos tanto falam, tardam a chegar. Esperemos que aconteça algo da parte do novo Governo depois desta tragédia», aguarda.
Igualmente presente no funeral esteve Joaquim Raposo, presidente da Câmara da Amadora, que fez questão de vir à Guarda manifestar um «grande gesto de solidariedade para com a PSP e a família deste agente», reafirmando a necessidade do seu concelho ser tratado de uma forma mais atenta. «Espero que a Amadora seja excepção em toda a sua plenitude, nas questões sociais e de segurança para que a violência possa mudar no meu concelho», completou. Entretanto, na terça-feira, o gabinete de António Costa fez saber que o ministro da Administração Interna, tendo «em consideração a morte dos agentes, vítimas no passado domingo de acção criminosa, mandou de imediato instaurar o necessário inquérito, de forma a ser atribuída aos familiares uma indemnização pelos danos que sofreram».
Ricardo Cordeiro



