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As universidades do interior não podem perder esta oportunidade

Fio de Prumo

No próximo concurso nacional de acesso ao ensino superior haverá menos lugares para os alunos que pretendam entrar em universidades de Lisboa e do Porto. A medida é criticada por reitores das duas metrópoles, mas é – sem dúvida! – boa para o país.

«As árvores não crescem até ao céu», afirmou Peter Drucker, especialista em gestão de empresas. Ou seja, as vagas criadas no ensino superior nos grandes polos universitários das cidades do litoral não podiam crescer até ao infinito. Ou melhor: podiam – só que nesse caso verificar-se-ia uma gigantesca transferência de recursos do interior para as duas maiores cidades, uma transferência de pobres para ricos, a qual prejudicaria toda a gente, a começar pela maioria dos estudantes.

Nos últimos anos verificou-se uma concorrência desenfreada e desleal das universidades de Lisboa e Porto em relação às instituições de ensino superior do interior com menor dimensão (e menor influência política). O único objetivo foi captar o maior número possível de alunos – e a principal consequência foi aumentar, direta e indiretamente, o despovoamento do interior.

Por isso, a redução de 5% das vagas no próximo ano letivo nas universidades e politécnicos de Lisboa e Porto, cerca de 1.100 alunos, é politicamente arrojada. E constitui, desde já, um enorme desafio para as universidades e politécnicos do interior: a qualidade do seu ensino, a qualidade e proatividade dos seus centros de inovação, a sua capacidade de produzir ciência e de, em parte dos cursos, a aplicarem em empresas e instituições vai estar sob escrutínio. E das duas, uma: ou a qualidade do ensino e da investigação nas universidades e politécnicos do interior aumenta, e os alunos que lá estudam se sentem realizados, ou a frustração virá ao de cima e, a prazo, esta medida será revertida.

Cabe agora aos professores e investigadores do interior, aos seus reitores e presidentes de politécnicos, mostrarem aquilo que valem. Ou apostam na exigência e na concorrência e ganham prestígio, ou vão ser ultrapassados. Ou promovem os cursos com empregabilidade na região, dinamizando mestrados e doutoramentos dentro das empresas, ou a oportunidade será desperdiçada.

Para já, partem com uma vantagem. Com o preço da habitação em Lisboa e Porto, a vinda de estudantes para as cidades do interior irá ajudar o rendimento disponível das respetivas famílias. Mas isso só será bom se, no final das licenciaturas e dos mestrados (e doutoramentos), os estudantes e seus familiares acharem que valeu a pena. Será desastroso se sentirem que o barato lhes saiu caro…

Por: Acácio Pereira

* Dirigente sindical

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