Portugal viveu dias de terror na última semana. O dia 15 de outubro vai ficar para a história como o pior do ano no que toca a incêndios. Em pleno outono registaram-se, só no domingo, mais de 300 incêndios de norte a sul do país. O distrito da Guarda também não escapou à fúria das chamas, com 22 ocorrências de grande dimensão. Seia, Gouveia, Guarda, Fornos de Algodres e Sabugal foram alguns dos concelhos mais afetados pelos fogos até à passada segunda-feira.
Tardou em chegar ajuda dos céus, nem chuva nem aviões vinham para travar os fogos que fustigavam a Beira Interior. Só já na madrugada de terça-feira caíram os primeiros pingos de chuva que vieram pôr fim aos incêndios que teimavam em não dar tréguas. O balanço, ainda que seja cedo para calcular todos os estragos, é negro. O cinza que agora pinta a paisagem não vai deixar esquecer as duas vítimas mortais registadas na região. Um casal faleceu na freguesia de Vide (Seia), quando tentava defender os seus bens, juntando-se às mais de 30 vítimas mortais dos incêndios da região Centro.
Populares lutaram sozinhos contra as chamas
A Ramela e Albardo foram duas localidades da Guarda onde deflagraram incêndios e que depressa se propagaram a outras povoações vizinhas. Não havia bombeiros que chegassem e em muitas aldeias foram os populares que salvaguardaram os seus bens. Embora ainda não seja possível fazer a contabilização de todos os estragos, o vereador da Câmara da Guarda com o pelouro da Proteção Civil adiantou que arderam 10 edificações e a certeza de «muito mato e floresta». Sérgio Costa lamenta o despacho ministerial que «erradamente pôs fim à época dos incêndios» e considera que só com «a ajuda dos populares, que constituíram verdadeiras brigadas de sapadores, foi possível salvaguardar pessoas e bens». Para o responsável, «fracassou o combate ao fogo na mata, mas era humanamente impossível».
Durante a noite de domingo foi necessário retirar alguns moradores das localidades de Panóias e João Antão, que foram colocados em casas de familiares. Também em Pousade a freguesia ficou cercada pelas chamas e algumas casas devolutas ficaram destruídas. No Adão temeu-se o pior, Luís Dourado habitante daquela aldeia, contou a O INTERIOR que durantes dois dias os populares lutaram contra o avanço das chamas. Nesta freguesia apenas ardeu mato e floresta «mas graças aos populares. Por aqui não houve bombeiros», lamenta. O combate foi feito com «cem por cento de amadorismo, os únicos militares que por ali passaram foi a GNR para cortar a estrada», garante o habitante. Foram feitos vários pedidos de ajuda «mas ninguém aparecia». Luís Dourado reconhece que dada a situação que o distrito vivia não era possível «chegar a todo o lado», mas chegou a temer pelos seus bens: «O fogo esteve do outro lado da casa e felizmente conseguimos pará-lo» sem que houvesse danos maiores.
No Adão, tal como noutras freguesias, valeu a união dos populares e um carro cisterna da Junta de Freguesia que tentou socorrer todos. «Do que vi ali pode estar uma terra a arder e não há ninguém que tente controlar», lamentou o popular.
Mais de duas dezenas de casas arderam em Seia
Entre a madrugada de domingo e a madrugada de terça-feira Seia viu-se cercada por três incêndios que deflagraram em Casas Figueiras, Sandomil e Sabugueiro. As chamas tomaram proporções incontroláveis e foi necessário ativar o Plano Municipal de Emergência de Proteção Civil. O presidente da autarquia fala em «resultados dantescos». Com três incêndios no concelho «não havia mãos a medir e era impossível prever a direção que o fogo ia tomar, o vento alternava com muita rapidez», recorda Carlos Filipe Camelo. Em Seia ainda houve meios aéreos, mas essa ajuda não durou muito, pois «não havia condições para se manterem no território», explicou.
«Somos um concelho demasiado grande para o número de meios, precisávamos de maior cobertura», considera o autarca, que reconhece que não podia ser de outra forma devido «ao elevado conjunto de situações». Seia foi o único concelho da região onde se registaram vítimas humanas, tendo-se perdido também floresta, mais de duas dezenas de casas de primeira e segunda habitação e empresas. Carlos Filipe Camelo já reuniu entretanto com o primeiro-ministro e vai «aguardar para saber que apoios irão chegar», por agora começaram já a ser feitas demolições e apoiar as famílias mais afectadas. Neste concelho cerca de 40 pessoas foram retiradas de suas casas, algumas puderam voltar, outras tiveram de ser realojadas. O lar no Sabugueiro também teve de ser evacuado e chegou a temer-se que o Hospital de Seia fosse também ameaçado, o que acabou por não se confirmar.
«O governo falhou»
Em Gouveia também só a chuva pôs fim ao fogo que consumia parte do Parque Nacional da Serra da Estrela. Ainda há muitas contas por fazer mas já estão contabilizados 15 hectares ardidos. O incêndio não afetou apenas área rural, invadiu também a zona urbana e ameaçou 11 freguesias do concelho. Mais de 20 casas, propriedades agrícolas e empresas foram destruídos pelo inferno que se abateu durante dois dias.
As falhas nos meios de comunicação, sem rede fixa ou móvel, dificultaram o combate, mas o presidente da autarquia considera que «o incêndio ganhou proporções por não haver meios no terreno». Luís Tadeu reconhece que são «zonas de difícil acesso devido à inclinação, mas se houvesse meios aéreos tinham sido poupados prejuízos». Na sua opinião, «há que pensar seriamente em tudo o que aconteceu e tirar responsabilidades efetivas», pois «não existiu coordenação entre o comando e os bombeiros». O edil reconhece que os voluntários «fizeram tudo o que podiam, mas faltou mais. Alguém tem culpa e não são as Câmaras Municipais de certeza. Não somos nós que contratamos os meios aéreos, que eram os únicos com capacidade para atuar neste incêndio». O presidente gouveense considera que «o Governo falhou», pois «não podem dizer que mobilizaram todos os meios porque não é verdade, os aviões tinham de aparecer».
Franclim Caetano viveu na primeira pessoa o drama dos incêndios em Gouveia. Vive numa das extremidades do concelho e só não sofreu quaisquer danos graças à sua intervenção e à de amigos, que ajudaram a defender a sua casa. «O meu terreno estava limpo, mas à volta não estava. Ligámos várias vezes para o 112, mas ninguém atendia, acabámos por ter de ser nós, cerca das 2h30 da manhã, a intervir», contou a O INTERIOR. Foram momentos de pânico: «As pessoas arriscaram as suas vidas. As chamas eram enormes, mas avançaram com enxadas, pás, baldes com água, giestas, com uma mangueira que tenho junto à habitação e conseguiram durante aproximadamente meia hora resolver o que se pensava que não tinha solução».
Franclim Caetano refere que perdeu apenas uma figueira e uma sebe que estavam junto a um caminho público «que estava por limpar», mas houve quem sofresse mais perdas. «Havia aqui perto um projeto de plantação de mirtilos cujo terreno ardeu todo, apenas conseguiram salvar a casa», conta.
«Política Florestal errada e desactualizada»
A área ardida em Fornos de Algodres foi também «muito grande», com várias freguesias a serem afectadas, disse o presidente da autarquia. O incêndio deflagrou em Cortiçô, mas rapidamente alastrou e afetou aldeias vizinhas. «Ardeu pinhal, olival e alfaias agrícolas. Foi dramático», refere Manuel Fonseca. Também aqui «a falta de meios foi visível», mas, no entanto, reconhece o trabalho feito pelas autoridades, «bombeiros e proteção civil fizeram o que conseguiram para que as consequências não fossem mais gravosas». Valeram «as populações e juntas de freguesias que foram incansáveis» e impediram que ardessem casas de primeira habitação.
Manuel Fonseca diz não se recordar de um incêndio tão grande no concelho e se Fornos de Algodres vivia dias difíceis devido à seca, com alguns produtores com falta de água para os animais, «o cenário agora é ainda mais preocupante, arderam muitos pastos». A autarquia espera agora apoios do governo. Quanto a “culpas” o autarca fala numa «política florestal errada e desactualizada». Hoje em dia ninguém limpa as matas, muitas vezes porque a coima é inferior ao custos da limpeza e porque os rendimentos que hoje se tiram dos terrenos não é suficiente para os manter limpos», considera.
Num fim-de semana onde as chamas não deram tréguas, também o concelho do Sabugal foi afectado. «Algumas aldeias foram evacuadas e viveram-se momentos de pânico», revela o vereador com o Pelouro da Proteção Civil, Vítor Proença. Embora tenham sido salvas as casas «perdemos anexos agrícolas, pastos e árvores de fruto», referiu. Vítor Proença considera que os «meios foram manifestamente insuficientes e valeu a ajuda das populações».
Com toda a zona centro em chamas vivera-se momento de terror na Linha da Beira Alta, que esteve cortada durante horas entre Mortágua e Santa Comba Dão devido a incêndios. Os fogos afectaram ainda o funcionamento das escolas e foram suspensas as atividades letivas nos concelhos de Seia, Gouveia e Fornos de Algodres durante vários dias.
Dois mortos em Vide e um terceiro na A25
Três habitantes do distrito da Guarda morreram em consequência dos incêndios que assolaram a região no domingo e na segunda-feira.
Um casal faleceu em Vide (Seia) quando decidiu regressar a casa para tentar salvar os seus bens. Marido e mulher, com idades na casa dos 40 anos, tinham sido evacuados para o quartel dos bombeiros de Loriga, juntamente com os filhos menores, durante a tarde, mas optaram por voltar para a localidade tendo os corpos sido encontrados carbonizados dentro da viatura. A terceira vítima é uma professora do 1º ciclo do ensino básico, residente em Freixedas (Pinhel), que seguia numa viatura abalroada na A25 por outro veículo em contramão cuja condutora, uma jovem de 19 anos grávida que morreu no local, tentava fugir do fogo na zona de Vouzela. A docente, com cerca de 40 anos, era um dos quatro feridos graves causados pelo acidente e acabou por falecer na tarde de segunda-feira no Centro Hospitalar Tondela-Viseu na tarde de segunda-feira.
Ministra da Administração Interna demitiu-se
Constança Urbano de Sousa apresentou a demissão na quarta-feira e o pedido foi aceite por António Costa.
Numa carta enviada ao primeiro-ministro, Constança Urbano de Sousa considera «esgotadas todas as condições» para continuar no Ministério da Administração Interna. «A ministra da Administração Interna apresentou-me formalmente o seu pedido em termos que não posso recusar», escreve o primeiro-ministro numa nota enviada à comunicação social. António Costa revela também a carta enviada por Constança Urbano de Sousa, em que se fica a saber que a ministra pediu a demissão logo a seguir à tragédia de Pedrógão Grande. Contudo, o primeiro-ministro pediu-lhe que ficasse e reiterou confiança na altura. «Logo a seguir à tragédia de Pedrógão pedi, insistentemente, que me libertasse das minhas funções e dei-lhe tempo para encontrar quem me substituísse, razão pela qual não pedi, formal e publicamente, a minha demissão. Fi-lo por questão de lealdade», justifica Constança Urbano de Sousa.
A ministra voltou a fazê-lo depois dos incêndios deste domingo, sublinhando que, «apesar desta tragédia ser fruto de múltiplos fatores», entendia que já «não tinha condições políticas e pessoas» para continuar no exercício do cargo. A demissão aconteceu após um discurso duro do Presidente da República, anteontem à noite em Oliveira do Hospital. «Mais de 100 mortos em menos de 4 meses são uma interpelação política», afirmou Marcelo Rebelo de Sousa, que assumiu ser «justificável pedir desculpa». Para o chefe de Estado, «por muito que a frieza destes tempos cheia de números e chavões políticos convidem a banalizar, estes 100 mortos não mais sairão do meu pensamento, como um peso enorme na minha consciência e no meu mandato presidencial».
ADAG pede «mudança urgente» da gestão política da floresta e agricultura
A Associação Distrital dos Agricultores da Guarda (ADAG) pede uma «urgente mudança da gestão política da floresta e da agricultura» para evitar uma nova «onda de incêndios» no país e na região.
Em comunicado a direção da ADAG, presidida por António Machado, exige aos responsáveis políticos «um olhar mais atento aos problemas do distrito, incluindo a sua agricultura». A associação refere que os 22 incêndios registados pela Autoridade Nacional de Proteção Civil (ANPC) no domingo e segunda-feira causaram «prejuízos incalculáveis» no «já martirizado distrito da Guarda», tendo afetado os municípios de Almeida, Celorico da Beira, Figueira de Castelo Rodrigo, Fornos de Algodres, Gouveia, Guarda, Pinhel, Sabugal, Seia e Trancoso. «Há a lamentar, pelo menos, a perda de uma farmácia em Melo, Gouveia, e muitas empresas industriais e comerciais que afetarão irremediavelmente a coesão económica e social do distrito», prejudicando a «viabilidade futura» do território, alerta a ADAG.
Estudantes do IPG recolhem bens para bombeiros e famílias afetadas
A Associação Académica da Guarda (AAG) está a recolher bens monetários e alimentares destinados aos bombeiros e às famílias da região afetadas pelos incêndios.
Na sua página no Facebook, a AAG, presidida por Nuno Pereira, pede à comunidade académica a «maior brevidade» na entrega daquilo que entender «ser necessário, visto que tanto os bombeiros, como as famílias afetadas», precisam da ajuda «o mais breve possível». Alunos, professores ou funcionários do IPG podem colaborar com a campanha, entregando o seu contributo na sede da AAG, das 14 às 19 horas, «em bens monetários ou alimentares», que os dirigentes depois farão «chegar a quem de direito». Com a iniciativa, a Associação Académica demonstra a sua disponibilidade em ajudar os bombeiros, «que têm sido incansáveis», assim «como as famílias desalojadas» pelos incêndios que nos dois últimos dias fustigaram o país e o distrito da Guarda.
A instituição apresenta ainda as condolências às famílias afetadas pelos fogos e adianta que irá «doar um valor em dinheiro» para «amenizar os gastos com comida e materiais de saúde, permitindo que mais cidadãos possam ser ajudados».
Bispo da Guarda pede medidas concretas pela proteção das populações
D. Manuel Felício viveu no domingo momentos de aflição quando presidia à missa na igreja paroquial de Vinhó (Gouveia) e a localidade ficou cercada pelas chamas.
A situação levou o Bispo da Guarda a pedir que todos «estes incêndios não caiam no esquecimento do Governo» e que se tomem «medidas concretas em torno da proteção e vigilância do património e das populações». Na manhã de segunda-feira o prelado foi novamente confrontado com uma situação de incêndio na zona do Sabugal, tendo sido obrigado a voltar para trás, quando se dirigia para a reunião dos Bispos do Centro que decorreu em Penamacor.
Período crítico do Sistema de Defesa da Floresta prolongado até final do mês
O período crítico do Sistema de Defesa da Floresta, que prevê a proibição de lançar foguetes e fazer queimadas e fogueiras nos espaços florestais, foi prolongado até 31 de outubro devido às condições meteorológicas.
O período crítico já tinha sido prolongado, passando a vigorar entre 30 de setembro e 15 de outubro, atendendo às «condições meteorológicas excecionais», como explicou na altura um despacho do secretário de Estado das Florestas e do Desenvolvimento Rural. O novo despacho refere que o segundo prolongamento se justifica pelo facto da chuva prevista poder «não ter expressão na alteração do índice de severidade meteorológico acumulado», mantendo-se, assim, um «elevado estado de secura dos combustíveis.
Ana Eugénia Inácio


