Num dos primeiros anos da década de 1990, embalados pela queda do muro de Berlim e perspectivando a vitória da Dinamarca no Campeonato da Europa de 1992, vinte e cinco folgados sem Twitter nem Facebook organizaram uma lista para concorrer às eleições para a Associação Académica da Universidade da Beira Interior. Tendo em consideração que era o mais desajuizado entre esses vinte e cinco imprevidentes, liderei essa lista como candidato a presidente da direcção. No panfleto de apresentação da lista, por cima dos nossos nomes, surgiam fotografias de pessoas célebres. Escolhi ser representado por Einstein, porque tal como se faz hoje nos perfis das redes sociais, eu queria que a fotografia fosse de alguém mais bonito do que eu.
Nesse ano, as eleições para a Associação Académica foram disputadas por seis listas. A nossa, a Z, apresentou-se ao eleitorado com um manifesto poético, apropriado ao contexto local, com inspiração na decadência urbano-industrial. No debate organizado entre os seis candidatos, perante uma plateia de umas duzentas pessoas, respondi a todas as questões que me foram colocadas, pelo moderador e pelos outros candidatos, com leituras de Eça de Queiroz, Padre António Vieira, Franz Kafka e Mão Morta. A erudita audiência aplaudiu cada resposta entusiasticamente. À leitura de “Uma Campanha Alegre”, a plateia explodiu em êxtase e exultou, de pé.
No dia das eleições, entre mais de mil votantes, a lista Z, composta por vinte e cinco alunos, ficou em último lugar com vinte e dois votos, mas com a consolação poética do resultado ser a repetição do algarismo (2) graficamente mais parecido com a letra da lista (Z).
Por: Nuno Amaral Jerónimo



