1. Como era de prever, as exéquias de Soares mostraram, com justiça, um país genericamente comovido e grato. Todavia, a pequenez geográfica e, sobretudo, a menoridade mental de alguns, conduziram aos esperados exageros. Quer na incapacidade de, por um momento, calar um ódio destilado pelo tempo, quer nas tentativas de forçar um unanimismo norte coreano. Em tempo útil, ou seja, antes da sua morte, já prestei a minha homenagem a Soares. Só quero reforçar o que, na altura, afirmei: pena que o seu exemplo não tenha feito escola no PS. Hoje nas mãos de gente menor, sem talento e sem memória.
2. Num destes dias, na fila de uma caixa de pagamento automático, num supermercado. À minha frente, duas pessoas: um senhor sexagenário, com boa apresentação, e uma menina aparentando ter 10 anos, mais coisa menos coisa. No início, ainda pensei tratar-se de um avó acompanhado da neta. Portanto, uma só operação de pagamento, o que apressaria a minha vez. Mas não foi assim! O tal senhor estava com notórias dificuldades em lidar com a máquina. Ou por causa da leitura dos códigos de barras, ou do peso detectado obrigar a recolocar os artigos, ou devido à descoordenação no pagamento e arrumação dos artigos. A funcionária foi chamada a intervir por diversas vezes. Por fim, lá saiu! Entretanto, para minha surpresa, a menina avançou para a caixa, afim de pagar os dois ou três produtos que trazia consigo. Ainda pensei que a cena anterior se iria repetir. Mas não. Qual peixe a entrar na água, a miúda executou a operação com uma desenvoltura e uma agilidade que nem deu para acreditar! Até o pormenor das moedas certas retiradas de um estojo minúsculo e prontamente introduzidas no receptáculo da máquina, em bicos dos pés. E tudo isto em menos de um minuto! Por momentos, fiquei embasbacado!… Mas após ter pago, já fora do estabelecimento, o episódio tornou-se matéria de reflexão. Tinha acabado de assistir a um exemplo de um sério problema experimentado na nossa sociedade. Ou seja, a iliteracia face a automatismos e a tecnologias, como factor de condicionamento. Embora não seja uma questão exclusivamente geracional, são sobretudo os mais velhos que com ela se defrontam. Do outro lado, as gerações recentes, cuja aprendizagem e socialização decorrem ao ritmo das novas tecnologias. O que altera completamente o conteúdo da literacia que irão desenvolver e pôr em prática. Aqueles que, como no exemplo, estão inteiramente preparados para encarar a automação como uma banalidade.
3. O pior da pobreza não é a privação, mas o estigma do peso acumulado de sonhos impossíveis de concretizar. Não é deixar de ter, mas não poder sequer olhar para si em paz. Não é abdicar do futuro, mas não poder ter passado. Não é ter que pedir, mas ter que aceitar. Não é a tristeza, mas o esplendor do rosto ficar resumido ao brilho fugidio do olhar. Não é, mas é: um beco sem saída, cada vez mais difícil de contornar
4. A calada da noite, uma galinha e a escapadela romântica resolveram organizar uma festa de arromba. Na restrita lista de convidados, sobressaía Toneca Gutierrez, de capacete azul, um gay ilustre, para preencher a quota, Singh, Facada e Ranheta, os três ventríloquos do Geringonstão, a deputada Isolda Mareira, que mais tarde executaria uma dança do ventre, seguida de uma palestra sobre boas práticas de linguagem, Genteno, o patusco chefe da intendência, umas gajas bué de boas, Ascensão Caristas, com ganas de uma aula de bike sincronizada e sessão sobre planeamento familiar, Santana Lopez, para uma concorrida demonstração de dança hipop com brilhantina, as manas Merdágua, momentaneamente detidas à entrada por suspeita de bomba, o estimável Walking Rabbit, disfarçado de mafarrico, mais algumas galinhas das redondezas, o ayatollah Abu Louçãh, para uma oficina sobre fatwas e rudimentos do Corão, Marmelo de Sousa, ex vedeta da TV, animador da Casa Real britânica e especialista em charutos cubanos, Martes Vedes, paparazzo de serviço e, como não podia deixar de ser, o velho mendigo Goodstay. Quando este entrou no salão, já sabem o que é que todos gritaram a plenos pulmões: “Carrega, Goodstay, rumo ao tetra!”
5. A solidão abre frestas, alçapões, abismos. Não para nos debruçarmos sobre eles. Mas para que saibamos usar cordas, construir pontes, como se fosse uma questão de vida ou de morte. A solidão não cria novas ferramentas, mas obriga a confiar nas que existem. E a acender o fogo em qualquer lugar. A pele também abre sulcos, por onde correm rios e rolam seixos polidos pelo tempo. Os olhos brilham na escuridão, ávidos e atentos. E, se não chegar, é uma voz distante que conta mil histórias que são só uma. Porém, ara quem soube procurar e merecer, felizmente existe a arte, a literatura, a natureza. Nunca se está só nessas aldeias povoadas de amigos. É lá que mantemos as janelas abertas. É lá que a fantasia vagueia, que a alma irrompe através das muralhas espessas, que as mãos acenam ao invisível. É lá que percebemos que os sonhos só estão vagos porque outros os perderam. E só lamentamos quem nunca teve a arte ou a coragem para nos amar, pois não sabe o que perdeu.
Por: António Godinho Gil
* O autor escreve de acordo com a antiga ortografia



