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Memória e 2,3%

1 – Fez-me bem, muito bem mesmo, a companhia de Abílio Curto, na viagem que ambos fizemos até Lisboa, para participar no funeral, para nos despedirmos de Mário Soares.

Foram três longas horas a revisitar as nossas memórias de décadas, com episódios pitorescos e saborosos, mas com muitos momentos de confronto e profunda tensão no seio do PS.

O Abílio é uma enciclopédia viva do socialismo na Guarda e a concelhia e a distrital ainda vão a tempo de lhe prestar a devida homenagem nesta comemoração dos 40 anos de Poder Local democrático.

Abílio Curto, goste-se ou não do homem e do político, é o “bravo”, onde foram “enxertadas” quase todas as boas “castas” de militantes e autarcas socialistas do concelho e do distrito e que tornaram a região num caso de estudo a nível nacional.

E foi devido a este carisma e capacidade de liderança que o tal “Presidente das Aldeias” sempre teve um lugar muito especial no afeto e na consideração de Mário Soares.

Abílio Curto sempre foi um socialista puro e convicto, ao contrário de mim – também puro e convicto, mas… –, homem do “sótão de Guterres” e apoiante do “ex-Secretariado”.

Foi comovente o sofrimento de Abílio Curto perante a urna aberta do seu Amigo e Mestre, e é indescritível o carinho com que foi confortado por tanta gente da sua geração, por Isabel e João Soares, que o reconheciam ainda depois de tantos anos.

Com o desaparecimento de Mário Soares domina-nos um enorme sentimento de perda. Mas o seu exemplo vai perdurar.

A marca que nos deixa é demasiado impressiva para ser alguma vez esquecida.

Um legado de coragem política, de patriotismo democrático, de estadista culto, de abertura ao mundo.

A liberdade era a sua causa e o seu lema de vida foi sempre o mesmo: «Só é vencido quem desiste de lutar».

Republicano, socialista e laico, Mário Soares foi um democrata português e nesse sentido um cidadão aberto ao mundo e à modernidade.

2 – Há menos de um ano o Governo de António Costa apresentou um orçamento deveras exigente: cumprir os compromissos inerentes às posições conjuntas com os partidos que compõem a maioria na Assembleia da República, os compromissos internacionais do país e executar o programa de Governo.

Muitos duvidaram e puseram em causa que fosse possível fazer isso tudo ao mesmo tempo e insistiram que não havia alternativa às políticas de austeridade do anterior Governo, que seria impossível cumprir um défice inferior a 2,7% ou mesmo 3%.

Hoje é já possível assegurar que o défice de 2016 não será superior a 2,3%, confortavelmente abaixo do limite fixado pela Comissão Europeia, o mais baixo de sempre no Portugal democrático, e que nos permite sair do procedimento por défice excessivo.

Afinal, havia mesmo alternativa. E uma alternativa com melhores resultados.

Como também o demonstra a queda da taxa de desemprego, que está nos 10,6% quando há um ano se fixava nos 12,4%.

O PSD e o CDS estão hoje remetidos ao papel de “arautos da desgraça” permanentemente à espera do “quanto pior melhor”, a única esperança que lhes resta para navegar os hipotéticos mares do desenvolvimento social.

Sobretudo no caso do PSD, se já sabíamos que eram maus no Governo, já não temos dúvidas que são piores na oposição!

Com o PSD de Passos Coelho ou não se conta ou não se sabe para o que conta. É o que tem acontecido em termos sucessivos e é o que está a acontecer agora no caso da TSU. Partido sem memória histórica não se importa de se negar a si próprio para ser contra o que o PS propõe.

Aumentar o salário mínimo nacional é justo e indispensável. Mesmo que o PSD tenha mudado de opinião só para ter uma opinião diferente da do Governo. Porque já todos nos apercebemos da tática de Passos Coelho: o PSD é verdadeiramente contra o aumento do salário mínimo nacional. A TSU é para disfarçar.

Por: Santinho Pacheco

* Deputado do PS na Assembleia da República eleito pelo círculo da Guarda

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