1. Recebi um extraordinário email. Daqueles em cadeia, do tipo “Desculpe a maçada, mas era só para lembrarmos que o mundo vai acabar. Cuidado! Desligue a luz antes de sair!” Desta vez, trata-se da aparição, em Lisboa, de uma substância especialmente perigosa chamada “Escolopamina”, ou, na versão popular, “Burundanga”. Segundo a informação divulgada, «actua em 2 minutos, faz parar a actividade do cérebro e transmite-se por via cutânea». É usada por assaltantes que escolhem as suas vítimas e, através de um proverbial conto do vigário, depositam nas mãos do infeliz um cartão, um mapa, uma moeda previamente «contaminados». Depois, com o desgraçado à mercê, é só sacar o que for possível. E por aí adiante. O próximo eleito «poderá ser você», etc. e tal. «Ah, mais um mito urbano para encher conversas de circunstância!», dirão os mais cépticos. «Bolas, mais boatos alarmistas! Como se a realidade não fosse já pesada!», dirão os mais prosaicos. «Spam alarmista, que encobre outras coisas de que ninguém fala!», dirão os mais esclarecidos. Todos cheinhos de razão é claro. Mas pensando melhor… Talvez noutra perspectiva… Vejamos então. O assunto só me interessa na parte dos efeitos desta “droga”. Mais concretamente, a paragem da actividade cerebral. É que, se o efeito for realmente esse, a coisa é de uma gravidade colossal. Podendo-se alvitrar desde já o seguinte: a) Em Portugal, esta droga já é de utilização corrente desde que foi descoberta, ou até antes, considerando-se termos sido escolhidos para cobaias; b) uma boa percentagem dos portugueses já foi algum dia contaminada; c) os seus efeitos são constantes e perduram no tempo. Em jeito de conclusão: Andou a geração de 70 e o Eduardo Lourenço a cismar horas e horas sobre a questão da identidade nacional. Tempo perdido! A identidade nacional é sempre feita à medida da droga nacional. Os chineses têm o ópio. Os russos a vodka. Os argentinos o mate. Nós temos o privilégio do efeito perpétuo da Burundanga. Viva a Burundanga! Viva!
2. Recentemente revi o célebre “High Noon” (“O Combóio Apitou 3 Vezes”, 1952), de Fred Zinnemann, com Gary Cooper e Grace Kelly, um momento decisivo na evolução do “western”. O xerife Kane é realmente o centro da acção narrativa. Por pouco, não se torna também no herói trágico. Embora tenha todas as condições para isso. O happy end não disfarça a catarse, nem encobre um argumento tão simples quanto intemporal, tão exemplar como universal. Perante a eminência de uma “vendetta” perpetrada por 4 pistoleiros que irá devastar a cidade nesse mesmo dia, todos os seus habitantes, um por um, fogem ao confronto. Todos, excepto Kane. Que contra a opinião de muitos e a pressão de alguns para ir embora, fica. Que desafiando o destino, a razoabilidade e o mais elementar bom senso, não vacila. Que vendo todos (mesmo os amigos e os que reconhecem nele o garante da tranquilidade) voltar-lhes as costas, não abandona o seu lugar. Ocorreu-me que esse é precisamente o lugar onde o mais importante se decide sempre nas nossas vidas. O lugar que, mais tarde ou mais cedo, a maioria de nós irá momentaneamente ocupar, para que nunca mais olhe para si próprio como um desconhecido. O lugar onde a solidão e a coragem se envolvem como duas serpentes cegas…
3. Nos créditos dos filmes, é comum aparecer, no final das menções aos actores principais, sejam elas em scroll ou com separadores, a proverbial referência “and…”, seguida do nome de um actor consagrado e/ou em fase final da carreira. Cujo desempenho no filme, sendo secundário, não justifica o destaque de um actor principal. Mas cujo estatuto, acima de qualquer dúvida, não permite o seu aparecimento, em pé de igualdade, com os actores secundários. Trata-se de uma convenção que, na 7ª arte, é levada à letra. E a que todos já tiveram certamente ocasião de assistir. Perguntarão vocês, “mas onde é que ele quer chegar?” (se quiserem, podem mesmo mandar a questão por e-mail). É simples. Trata-se de um pequenino desabafo: por vezes, diante do mundo, sinto-me como que aprisionado atrás da partícula “e”. Suficientemente insignificante para ficar de fora das luzes da ribalta. Mas sempre com uma palavra que, a ser dita, me pode distinguir de tudo o resto.
Por: António Godinho Gil



