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A Síndrome da Falta de Japoneses

Um dos personagens de “Liberdade”, de Jonathan Franzen, empreendia uma campanha para convencer as pessoas de que não deviam ter mais filhos. Os seus argumentos eram esmagadores e simples de entender, tantas as evidências preocupantes. Somos cada vez mais (sete mil milhões em 2012), esgotamos os recursos do planeta e qualquer dia não haverá forma de garantir a sobrevivência a tantos. A agricultura não pode tornar-se muito mais eficiente, os solos aráveis são escassos e o crescimento económico tem vindo a destruir esses solos. Dizem alguns hoje que deveremos mais tarde ou mais cedo começar a comer insectos – pelo menos até também estes se tornarem um bem escasso.

Isto a nível global, que em muitos países o problema é o inverso. Krugman dizia que o Japão começava a ter um problema grave, o da falta de japoneses em idade activa (na faixa etária que vai dos 15 aos 65 anos). Este problema é o reverso da medalha de uma importante aquisição civilizacional, com a chegada maciça das mulheres ao mercado de trabalho, mas também tem muito a ver com os tempos modernos, muito mais competitivos e egoístas – e nada com as preocupações do personagem de Franzen. O problema japonês irá ter consequências graves, quer na sustentabilidade da segurança social, com menos gente a descontar, quer na economia, com menos a contribuir para o PIB.

Com muita pertinência e algum humor veio agora um bloguista português (no Economia de Bancada) avisar que podemos também nós sofrer da síndrome de “falta de japoneses”. A taxa de fecundidade está em Portugal nos 1,5 filhos por mulher, quando deveria ser de 2,1 para se assegurar a renovação de gerações. Também aqui, por isso, a população activa diminui e também o PIB, indicador máximo das nossas desgraças, tem por necessariamente que diminuir ao haver menos pessoas a criar riqueza. Assim, havendo que diminuir o défice do orçamento do Estado, ou o endividamento, ambos em percentagem do PIB, há também que ter em conta que não são apenas as insolvências e o desemprego que estão a contribuir para a diminuição do produto interno mas que este, pela ordem natural das coisas, tem já essa tendência. Como alerta esse bloguista, podemos estar a olhar na direcção errada e a esquecer um dos nossos maiores problemas – e, correndo bem as coisas, poderemos outra vez, digo eu, preocupar-nos daqui a alguns anos com o excesso de população no Mundo.

Por: António Ferreira

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