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O meu ar

O meu ar é diferente do teu. O meu dinheiro tem caminhos distintos do teu. O meu carro é de uma classe diferente do teu. Os meus filhos vão a escolas onde os teus não vão. Os colegas dos meus filhos são rufias e os do teus são mal-educados. Mas o modo como vivemos é igual. Eu vou trabalhar e tu também. Eu cumpro com os meus deveres e tu também. Eu tenho filhos da mesma idade dos teus. Cruzamos na rotunda a caminho de espaços diferentes. Tenho um andar e tu a vivenda lá do fundo da rua. Os nossos pais eram amigos e nós também fomos. Eu respirei o mesmo ar que tu, estudei mais que tu, fiz o curso como tu, o mesmo curso, o mesmo percurso até ao dia em que te convidaram só a ti. Foste e ganhaste. Um destino melhor, um caminho mais rico, um lugar ao sol. Eu respirei mais modéstia, auferi salários mais plácidos, percorri caminhos menos vistosos, gastei muito menos que tu. O teu ar mudou e o meu nariz não chegou perto do teu. Nunca mais nos vimos além da rotunda. Nunca mais cruzámos para além da pizzaria. Não sei se te invejei e deste conta, não sei se me desprezaste pela modéstia. Nos últimos sete anos explodiste para um mundo que era infinito. Ações, obrigações, empresas, vivenda, carros, “parures/ futilidades”, comigo ali no fundo da rua a testemunhar.

Ontem paraste à minha porta a pé. Falaste-me pela primeira vez em sete anos. Sabias o meu nome. Falaste, continuaste a falar, foste falando e observei uma névoa no olhar. Caminhaste um pouco e voltaste a falar. Aceitei o que me pediste. Os teus filhos vivem comigo, nas escolas dos meus, entre os rufias de ontem e tu foste descobrir outro caminho. O meu ar modesto tem sido a única barca deste afundamento.

Por: Diogo Cabrita

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