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O “Publimassacre”

A procura do lucro a todo o custo chegou, há muito, às televisões generalistas. Felizmente, posso optar por ver outros canais para além dos quatro oficiais. Para além de aproveitar para me enriquecer científica e culturalmente com Discovery, Odisseia, História e NatGeo, também consigo ver filmes sem as irritantes interrupções para publicidade.

É sabido que TVI e SIC são, no que toca a publicidade, aquilo a que os ingleses chamam de “pain in the bottom” ou, traduzido, uma dor bem ao fundo das costas, mais propriamente no dito cujo. Realmente o teleconsumidor tem que ter uma enorme dose de paciência ou, cumulativamente, de masoquismo para se dar ao trabalho de esperar pela continuação dos seus programas, enquanto os intermináveis comerciais, intercalados com anúncios a outros programas, se desenrolam perante os seus olhos.

Já me tinham dito e dei-me ao trabalho de confirmar; os intervalos para publicidade na TVI e também na SIC chegam a demorar uns espantosos, desmotivadores e desrespeitadores trinta minutos!!! Estarão loucos? Os loucos somos nós que lhes damos audiências.

Saberão os anunciantes que estão a desperdiçar dinheiro quando permitem que os seus anúncios façam parte das maratonas publicitárias em que esses canais os metem? Tenho quase a certeza que uma imensa maioria de espectadores aproveita para fazer tudo o que tem a fazer nesses longuíssimos intervalos, como por exemplo, ir lanchar, jantar ou cear, tomar duche, lavar o carro, construir uma casa, fazer uma viagem ou erigir a muralha da China. De facto, todos ficam a perder com estas maratonas: As estações televisivas, porque os telespectadores, sempre que podem, ligam-se aos canais por cabo e evitam vê-las; os anunciantes, porque só os que são demasiado preguiçosos para fazerem “zapping” engolem os seus anúncios e os telespectadores, porque muitas vezes não conseguem acabar de ver filmes que entram pela madrugada, acordando no fim com o aumento de volume do separador publicitário, frustrando todos os esforços para acabar de os ver. Na TVI, por exemplo, um filme de 90 minutos aparece na programação com 150, o que dá a módica quantia de 60 minutos (!!!) de telelixo no meio do filme.

O combate a este flagelo está aí. Valem-nos as novas tecnologias com as prodigiosas “boxes” que permitem pausar e gravar programas. Com estas “meninas” só temos que fazer um “fast-forward” da publicidade e derivados, para irmos para o que interessa em programas previamente gravados. Acabaram-se os filmes pela noite dentro com sonecas intercaladas; vamos todos ganhar anos de vida e aproveitá-los para aquelas obras lá em casa, tratar do jardim ou da limpeza anual da garagem…ups! (É melhor a minha esposa não ler isto)

Em contracorrente, o programa dos “Gato Fedorento”. Aí informavam previamente que o intróito apenas teria a duração de dois rigorosos minutos e estariam de volta. É claro que aí o anunciante, único, tinha tudo a ganhar. Teria que pagar muito mais, mas a audiência ao seu anúncio estava garantida. Mais do que garantida, estava associada a um programa irreverente, como era o seu produto.

Na génese deste “publimassacre” estarão questões financeiras de empresas e televisões. Os primeiros porque não têm capacidade financeira para pagar muito por cada segundo de publicidade e os segundos porque precisam de muito para funcionar. Bem sei que TVI e SIC não são subsidiadas, mas urge atingir um ponto de equilíbrio, como o do temporizador do semáforo que nunca pode ir além dos dois minutos para não desesperar o condutor. Sinal dos tempos, passámos a ter programas no intervalo da publicidade.

Por: José Carlos Lopes

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