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«Temos que dignificar o 25 de Abril como uma das datas mais importantes da História de Portugal»

Cara a Cara – Entrevista: Amâncio Antunes

P – A Associação 25 de Abril promove todos os anos um almoço comemorativo da efeméride. Tem vindo a notar uma diminuição do número de participantes?

R – Nos primeiros anos após o 25 de Abril começámos por fazer um jantar no dia 24. Decidiu-se depois pela realização do almoço no dia 25 e a adesão passou a ser menor do que nos jantares. No entanto, a participação no almoço tem-se mantido mais ou menos estável ao longo dos anos. São sempre as mesmas 60/70 pessoas que se identificam com esses ideais e que participam, mas as inscrições estão abertas a toda a população.

P – Passados 35 anos sobre a Revolução de Abril, pensa que se trata de uma efeméride que perdeu importância na sociedade portuguesa?

R – Realmente as pessoas estão cada vez menos predispostas a lutar por ideais que na altura estavam mais arreigados. É evidente que isso não traz nenhum beneficio para a sociedade. As pessoas sentem-se desiludidas, desmotivadas e começam a interiorizar que a única coisa que lhes trouxe o 25 de Abril foi a liberdade de poderem falar. E mesmo assim, já há pessoas que sentem um certo desconforto em dizerem aquilo que lhes vai na alma.

P – Os jovens identificam-se cada vez menos com esta data. O que pensa que se deveria fazer para lhes passar o testemunho do 25 de Abril?

R – Temos todos que dignificar esta data e tê-la presente como uma das mais importantes da História de Portugal e, para isso, basta que nos lembremos e façamos lembrar aos mais novos o que era Portugal antes do 25 de Abril e o que é o Portugal depois. Esse trabalho devia ser feito nas escolas, referenciando esta data e fazendo ver aos jovens qual é o valor intrínseco desta data. Se já há esse esforço, não se está a notar muito. Independentemente de hoje não estarem concretizados todos os sonhos que almejávamos, é evidente que a sociedade deu um salto qualitativo.

P – Nesse sentido, em que consiste a actividade desta associação?

R – Ao longo dos tempos, temos tentado dinamizar a nossa actividade. Provavelmente não temos conseguido, já que as pessoas não têm grande disponibilidade para se envolverem muito nisso e então temo-nos limitado ao almoço e a um programa no dia 24 à noite. Este ano temos uma parceria com o Teatro Municipal da Guarda a propósito do concerto do grupo “A Formiga no Carreiro” com músicas de intervenção. Dentro das nossas possibilidades, temos tentado divulgar a data de alguma maneira.

P – Nos dias de hoje, pensa que o país precisava de outra revolução?

R – Eu acho que a revolução nunca foi levada até às últimas consequências. É evidente que as revoluções nunca se completam, elas têm uma certa dinâmica, que tem que ser imprimida pelo povo, por aqueles que sentem na carne as desigualdades sociais. E nós, como povo, somos um bocado pacíficos e estamos sempre à espera que sejam os outros a resolver as coisas por nós. Enquanto não se alterar esta mentalidade é difícil conseguir-se um melhor bem-estar para a população. Precisávamos, pelo menos, de uma revolução nas mentalidades e no pensamento.

P – Onde é que estava no 25 de Abril de 74?

R – Estava em Angola a cumprir o serviço militar. Nesse dia estava numa zona operacional e a mensagem não chegou logo. Disseram-nos apenas para suspendermos todas as operações, mas não nos disseram porquê. Passado um ou dois dias é que soubemos que a situação tinha mudado em Portugal e que a guerra colonial ia ser revista em toda a sua dimensão. A seguir ao 25 de Abril, em Luanda, íamos ao cinema e os documentários antes dos filmes diziam todos respeito ao 25 de Abril e ao 1º de Maio. Nós íamos lá, mas só víamos esses documentários, não víamos os filmes, pois era tal a emoção que tínhamos que sair para festejar. As imagens que passavam da adesão do povo à nova vida democrática eram avassaladoras. Devo dizer que foi das coisas mais gratificantes que me mostraram naquela altura.

Amâncio Antunes

«Temos que dignificar o 25 de Abril como uma
das datas mais importantes da História de Portugal»

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