A bolha imobiliária na América tocou o seu máximo em 2006, segundo Alan Greenspan, ex-presidente da Reserva Federal (FED), centenas de milhares de proprietários assistiram à execução da hipoteca das suas casas, criando um excedente de 600.000 casas desocupadas, às quais foram acrescentadas mais 200.000 por construtores apanhados de surpresa pela rápida contracção do mercado.
Os preços das casas iniciaram a sua descida, enquanto que os stocks de casas desocupadas aumentavam.
Foi depois do 11 de Setembro que o FED começou a baixar as taxas de juro (dos 6,5% chegou ao 1%). Esta tendência levou a um intenso movimento de aquisição de casas, acentuado a partir de 2003, quando as instituições de crédito deixaram de ser tão exigentes nas condições requeridas para conceder crédito.
Elevaram-se os empréstimos aos clientes que apresentavam ‘situações menos favoráveis’, de alto risco, mais conhecidos por ‘subprime’, dado serem efectuados a famílias com rendimentos baixos, ou mesmo sem rendimentos, apenas com a garantia do valor da própria casa. Em muitas situações concedeu-se crédito num valor superior ao do próprio imóvel, dando para comprar a casa o carro e a mobília. Nestes empréstimos, era cobrada uma taxa de juro superior à normal.
O aumento da procura resultou numa rápida valorização dos imóveis, tanto as instituições financeiras, como as próprias famílias, conseguiam sair do negócio em qualquer altura obtendo ainda assim mais-valias.
Entretanto, por um lado, o FED iniciou a subida da taxa de juro, e por outro lado houve o decréscimo no preço das casas. As famílias deixaram de pagar os seus empréstimos, muitas foram as que pura e simplesmente abandonaram a casa. Em programa exibido pela CBS – “60 minutos” –, algumas dessas famílias confessavam que lhes custava sair da casa, mas que, apesar disso, acabava até por compensar, pois algumas ainda nada tinham pago, outras ainda ficavam com os restantes bens adquiridos com o excedente do empréstimo que o banco lhes havia concedido.
As instituições financeiras executaram as hipotecas ficando com casas que agora têm dificuldade em alienar. Adicionalmente surgem expectativas de quedas dos preços das casas entre 20 a 30 por cento até 2009, segundo analistas da Bloomberg.
O FMI, na reunião da semana passada, relatou que as perdas geradas por esta crise poderiam ascender aos 945.000 milhões de dólares (638.514 milhões de euros).
A crise imobiliária alastrou à escala mundial, estando países como o Reino Unido, Irlanda e especialmente a Espanha com graves dificuldades num sector que influenciou fortemente, na última década, o seu crescimento económico.
Numa economia cada vez mais global, existem instituições financeiras, também na Europa, com investimentos em produtos ‘subprime’ das instituições norte-americanas, que foram também afectadas por esta crise. O que contribuiu para uma das maiores faltas de liquidez das últimas décadas, visível em situações como sejam a queda dos mercados financeiros (bancos e fundos que vendem as suas posições para gerar liquidez), vendas no sector imobiliário e campanhas bancárias publicitando taxas de juro, em depósitos, acima da taxa de inflação.
Refere-se esta semana, no Semanário Económico, que Portugal é dos países mais resistentes à crise, e que já sofreu os ajustamentos que outras economias se preparam para passar. Também os promotores imobiliários portugueses, presentes no Salão Imobiliário de Madrid da passada semana, se manifestaram confiantes e optimistas, referindo inclusivamente que o mercado imobiliário português se tornará ainda mais apetecível para os espanhóis.
Mas, o que eu vejo, é uma crise com contornos ainda pouco definidos, com consequências a nível do mercado financeiro ainda por escrutinar, famílias e empresas demasiado endividadas com taxas de juro que a nível europeu teimam em não baixar, um desemprego líquido que tende a crescer, e que, adicionado às dificuldades de obtenção de crédito, me levam a ser mais realista e pensar que quer a nível imobiliário, quer a nível macro económico, ainda vamos ter tempos difíceis pela frente nos próximos dois anos.
Fica uma questão, como foi possível chegar-se até aqui, havendo Bancos; Reguladores Centrais; Agências de Rating e Acordos de Basileia?
Por: Paulo Fragoso *
* Gestor, Director do Centro de Informática do IPG e membro da Assembleia Municipal da Guarda, como independente na lista do PSD. Inicia nesta edição colaboração mensal



