Cara a Cara

«Se o Agrupamento de Escolas de Pinhel é hoje uma referência na região o mérito é de todos aqueles que caminharam ao meu lado»

Escrito por ointerior

P – Vai cessar funções na direção do Agrupamento de Escolas de Pinhel, qual é o seu legado?

R – A escola é sempre uma construção coletiva, feita pelo trabalho diário de professores, assistentes operacionais e técnicos, alunos, pais e encarregados de educação, autarquia e muitos parceiros da comunidade. Mas diria que é ter contribuído para transformar o Agrupamento de Escolas de Pinhel numa instituição mais forte, mais prestigiada, mais inovadora e mais aberta à comunidade. Procurámos criar uma cultura de exigência, de responsabilidade, de proximidade e de confiança, colocando sempre os alunos no centro de todas as decisões. Nestas duas décadas consolidámos a identidade do Agrupamento, melhorámos significativamente as condições de ensino e de aprendizagem, dinamizámos inúmeros projetos nacionais e internacionais, reforçámos as parcerias com instituições públicas e privadas e alcançámos resultados académicos e educativos que orgulham toda a comunidade educativa. Tenho também a satisfação de deixar um Agrupamento financeiramente equilibrado, com uma imagem de credibilidade reconhecida e com uma equipa competente, empenhada e capaz de enfrentar os desafios do futuro. Mais do que edifícios, equipamentos ou projetos, acredito que o maior legado é a cultura organizacional que fomos construindo, uma escola que acredita nas capacidades dos seus alunos, que valoriza os seus profissionais e que assume a qualidade, a inovação e a inclusão como marcas da sua identidade. Saio com a consciência tranquila de quem deu o melhor de si durante 20 anos, sempre colocando o interesse público e o sucesso dos alunos acima de qualquer interesse pessoal. Se o Agrupamento de Escolas de Pinhel é hoje uma referência na região, esse é um mérito partilhado por todos aqueles que, ao longo destes anos, caminharam ao meu lado.

P – O que ficou por concretizar?
R – Gostaria de ter conseguido uma maior autonomia para as escolas, permitindo-lhes decidir mais sobre a gestão dos recursos humanos, da organização pedagógica e da oferta educativa, adaptando melhor as respostas às necessidades concretas dos alunos e do território. Perante a realidade atual, gostaria de ver alteradas três dimensões centrais da política educativa, nas quais tenho assumido posições claras e coerentes. O regime de exames nacionais (a escola deve ser um espaço de aprendizagem e não um campo de treino para exames), o modelo de gestão (cada escola deve ter o seu próprio modelo) e o sistema de avaliação do desempenho docente (o modelo atual é burocrático, injusto e desadequado). Outro desejo era ver reconhecido, a nível nacional, o enorme esforço e dedicação dos profissionais da educação, através de uma maior simplificação administrativa. As escolas passaram a dedicar demasiado tempo a procedimentos burocráticos, tempo esse que deveria ser canalizado para o que verdadeiramente importa: ensinar, acompanhar os alunos e promover o sucesso educativo. No entanto, saio sem qualquer sentimento de frustração. O Agrupamento de Escolas de Pinhel fica preparado para continuar a crescer, com bases sólidas, uma equipa competente e uma comunidade educativa que sabe trabalhar em conjunto.

P – Qual é a melhor recordação que leva da docência/ direção do Agrupamento?
R – É muito difícil escolher, porque 20 anos de direção e uma vida dedicada ao ensino proporcionam milhares de momentos inesquecíveis. Mas será sempre o contacto com os alunos. Ver uma criança entrar no Agrupamento cheia de curiosidade, acompanhá-la ao longo do seu percurso e encontrá-la, anos mais tarde, como um jovem preparado para prosseguir estudos, integrar o mundo do trabalho ou construir o seu projeto de vida é, sem dúvida, a maior recompensa que um educador pode ter. Levo também comigo a recordação de uma comunidade educativa extraordinária. Tive o privilégio de trabalhar com profissionais de enorme competência e dedicação, que, mesmo nos momentos mais difíceis, colocaram sempre os alunos em primeiro lugar. Foi esse espírito de equipa que permitiu ultrapassar desafios e alcançar resultados que hoje orgulham o Agrupamento de Escolas de Pinhel.
Há ainda momentos que ficam para sempre na memória. A concretização de projetos que pareciam impossíveis, as distinções alcançadas pelos nossos alunos, as atividades de final de ano, os sorrisos das crianças, o reconhecimento das famílias e o carinho que fui recebendo da comunidade ao longo destas duas décadas.

P – E a pior?
R – Talvez o que mais me tenha custado tenha sido acompanhar situações de grande fragilidade social, familiar ou de saúde que afetaram alguns dos nossos alunos, professores e funcionários que partiram. Perceber que a escola, apesar de todo o empenho dos seus profissionais, nem sempre consegue resolver todos os problemas que as crianças e os jovens trazem consigo é algo que marca profundamente qualquer diretor. Também houve momentos particularmente exigentes, como a gestão da pandemia de Covid-19. Foi um período de enorme responsabilidade, em que foi necessário tomar decisões rápidas, reorganizar e até reinventar o funcionamento da escola quase diariamente e garantir, ao mesmo tempo, a segurança de alunos e profissionais e a continuidade das aprendizagens. Realço com orgulho, o facto de, nesse momento, com o total apoio do Município de Pinhel, em pouco mais de 24 horas, conseguimos ficar ligados online a todos os alunos, prosseguindo a atividade letiva à distância.

P – Como vê o ensino? Houve melhorias ou, pelo contrário, piorou?
R – O ensino em Portugal evoluiu muito nas últimas décadas. Hoje temos uma escola mais inclusiva, mais aberta à diversidade, com melhores recursos, mais tecnologia, docentes mais qualificados e uma preocupação crescente em responder às necessidades de cada aluno. No entanto, também enfrentamos desafios cada vez mais complexos. A escola passou a assumir muitas responsabilidades que, no passado, pertenciam sobretudo às famílias e a outras estruturas da sociedade. Além da missão de ensinar, é chamada a responder a problemas sociais, emocionais e comportamentais, o que exige uma enorme capacidade de adaptação por parte dos profissionais. Ao mesmo tempo, a burocracia aumentou significativamente. Os professores e os diretores são hoje confrontados com um conjunto muito vasto de procedimentos administrativos que consomem tempo e energia que deveriam estar ao serviço daquilo que é essencial, ensinar, aprender e acompanhar os alunos. Apesar destes desafios, continuo a acreditar profundamente na Escola Pública portuguesa. É uma das maiores conquistas da nossa democracia e continua a ser o principal instrumento de promoção da igualdade de oportunidades, da mobilidade social e da formação de cidadãos livres, responsáveis e solidários. Se continuarmos a confiar nos profissionais da educação, lhes dermos mais autonomia, reduzirmos a burocracia e valorizarmos o seu trabalho, a escola pública continuará a ser um dos pilares mais importantes do desenvolvimento do país.

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DADOS DE PERFIL:

José Vaz

Diretor cessante do Agrupamento de Escolas de Pinhel

Naturalidade: Nave de Haver (Almeida)

Idade: 69 anos

Profissão: Professor

Currículo (resumido): Licenciado em Ciências da Educação e pós-graduação em Gestão e Administração Escolar; Conta com 46 anos de carreira na Educação e era desde 2010 diretor do Agrupamento de Escolas de Pinhel, funções que desempenhou até à aposentação, a 20 de julho deste ano; É defensor incondicional da Regionalização.

Livro preferido: “Esteiros”, de Soeiro Pereira Gomes

Hobbies: Desporto, particularmente o futebol. Jogou em Almeida e na Desportiva da Guarda, tendo sido depois treinador, técnico distrital e formador de treinadores na Associação de Futebol da Guarda, etc.

 

 

Sobre o autor

ointerior

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