Crónica Parlamentar de Aida Carvalho: Um ano de Governo: o teste da vida real

Escrito por Aida Carvalho

Passou um ano desde que o atual Governo tomou posse. Um ano de promessas, anúncios e expetativas criadas junto dos portugueses. Um ano que deveria ter servido para responder aos problemas mais urgentes das famílias e das empresas. Mas, para muitos, a realidade continua a ser marcada pela mesma preocupação de sempre: conseguir chegar ao fim do mês.
O aumento do custo de vida permanece como uma das principais dificuldades dos portugueses. Os preços da habitação continuam a afastar milhares de famílias do sonho de ter uma casa. Em 2025, o preço das casas registou um aumento próximo dos 17%, agravando um problema que afeta particularmente os jovens e a classe média. A alimentação, a energia e os transportes continuam igualmente a absorver uma parte crescente dos rendimentos das famílias. Quando os salários e as pensões não acompanham este aumento dos custos, o resultado é inevitável: perda de poder de compra e maior pressão sobre os orçamentos familiares.
Esta realidade atinge todos, mas não atinge todos da mesma forma. Nos territórios do interior, onde os rendimentos médios são mais baixos e onde os cidadãos enfrentam frequentemente maiores dificuldades de acesso a serviços públicos, as consequências sentem-se de forma ainda mais intensa. Quem vive longe dos grandes centros urbanos sabe que cada aumento dos combustíveis pesa mais, que cada serviço encerrado representa uma dificuldade acrescida e que cada oportunidade perdida agrava as desigualdades territoriais.
Ao mesmo tempo, persistem sinais preocupantes noutros setores fundamentais. O Serviço Nacional de Saúde continua a enfrentar dificuldades de resposta, com tempos de espera elevados e falta de profissionais em várias especialidades. A economia também dá sinais de desaceleração. Depois de um crescimento de 2,5% em 2023, a economia portuguesa cresceu apenas 1,9% em 2024, mantendo-se para 2025 previsões de crescimento semelhantes. Apesar dos anúncios e das expetativas criadas, muitas famílias e empresas continuam sem sentir melhorias concretas na sua situação.
Naturalmente, ninguém ignora os desafios internacionais que Portugal enfrenta. A guerra na Ucrânia, a instabilidade no Médio Oriente e as incertezas económicas globais têm impactos que não podem ser desvalorizados. Mas governar é precisamente saber responder aos desafios quando eles surgem. É apresentar soluções, proteger quem mais precisa e garantir que ninguém fica para trás.
Foi com esse objetivo que o grupo parlamentar do Partido Socialista apresentou o Projeto de Resolução nº 1080/XVII/1, recomendando ao Governo a adoção de medidas temporárias, proporcionais e avaliáveis para mitigar o aumento do custo de vida e apoiar famílias, empresas e os setores mais vulneráveis perante o atual contexto internacional. Porque perante dificuldades excecionais, exige-se capacidade de resposta e ação política orientada para os problemas concretos das pessoas.
Mas é também por isso que continuamos a defender uma maior atenção aos territórios do Interior. A coesão territorial não pode ser apenas uma expressão repetida em discursos. Tem de traduzir-se em decisões concretas, investimento, serviços públicos de proximidade, apoio à atividade económica e condições para que os jovens possam construir aqui os seus projetos de vida.
O Interior não pede privilégios. Pede igualdade de oportunidades. Pede que as políticas públicas tenham em conta as especificidades de quem vive longe dos grandes centros de decisão. Pede que o desenvolvimento do país seja pensado para todos e não apenas para alguns.
Um ano depois, é legítimo avaliar resultados. E os resultados medem-se na vida das pessoas. Medem-se na capacidade de pagar uma renda, de encher o depósito do carro, de fazer as compras da semana ou de garantir um futuro aos filhos.
Quando um número cada vez maior de famílias continua a sentir dificuldades, é sinal de que há ainda muito por fazer. Os indicadores económicos só têm verdadeiro significado quando se traduzem em melhores condições de vida para as pessoas. O teste mais importante de qualquer Governo não está nos anúncios: está na vida real dos portugueses.

* Deputada do PS na Assembleia da Républica eleita pelo círculo da Guarda e coordenadora da 8ª Comissão de Educação e Ciência

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