Li recentemente uma observação de António Tabucchi sobre a qual vale a pena reflectir. Dizia o escritor italiano radicado em Portugal: «Normalmente pensamos que nunca morremos. É uma das maiores desgraças que pairam sobre o mundo moderno. As pessoas que estão no poder, sobretudo, devem pensar que nunca vão morrer. É por essa razão que são tão estúpidas».
Eis como, com desassombrada singeleza, se explica o permanente desencontro entre os políticos e os outros, supostamente aqueles cujo interesse as decisões dos primeiros deveriam defender antes do mais. À luz da – se não «vera», pelo menos «bene trovata» – doutrina Tabucchi, a justificação estará na superhumanidade de que os detentores de um poder (no entanto) efémero se convencem privilegiados portadores. Isso explicará a arrogância e a sobranceria de muitos dos espécimes do género, expressa as mais das vezes contra a comunicação social, o mensageiro tantas vezes condenado por trazer más notícias. E eventualmente esclarecerá as razões da polémica causada neste fim-de-semana pela publicação no EXPRESSO da entrevista do ministro dos Negócios Estrangeiros onde este admite que o exercício das funções para que tomou posse pela segunda vez (a primeira foi em 1980) há pouco mais de um ano o deixa cansado.
O Carmo e a Trindade caiu antes mesmo de conhecido o conteúdo da entrevista, quando apenas se sabia que esse era o título chamado à primeira página do semanário. Ao ponto de o próprio ministro ser obrigado, perante o escândalo público causado pela «confissão», a emitir um comunicado para dizer que não disse o que disse.
O episódio só me leva a crer que Tabucchi tem razão: os políticos estão na sua generalidade convencidos de que são superhomens e o resto da sociedade, comunicação social obviamente incluída, alinha no jogo e exige qualidades sobrehumanas aos gestores da res publica. O reconhecimento por um deles de que é – como qualquer um dos «outros», como qualquer um de «nós» – susceptível de se cansar ao fim de doze horas de trabalho, porque já não tem 20 anos (pois não, tem quase 65), é, nesta lógica, uma assunção de fraqueza e, como tal, inadmissível. Por isso é notícia – para nós, jornalistas. Por isso não podia ser notícia – para eles, políticos.
Mas a questão de fundo não é essa. A pergunta que se impõe é a seguinte: continua Freitas do Amaral, apesar do cansaço assumido, a ser capaz de levar para a frente, com mérito e competência, as tarefas que lhe foram destinadas e que ele aceitou cumprir? O facto de já se terem passado dois dias e de o ministro continuar em funções leva-me a crer que José Sócrates já lhe fez esta pergunta e que o MNE só pode ter respondido que sim. Sendo certo que Freitas nem se pode sequer queixar de desconhecimento do que o esperava, uma vez que é um repetente no cargo, e que Sócrates deve ter feito das tripas coração para correr o risco de ouvir um «não» como resposta, porque, como todos sabemos, no dia em que fizer uma remodelação fará questão de sublinhar que não a fez condicionado por nenhum timing que não o seu próprio.
Portanto, fim de história. Continuemos em frente. Com uma nota final: por mim, dispenso superhomens. Algo me diz que eles não existem.
Por: Cristina Figueiredo



