«Querido Pai Natal, como nos portámos muito bem, este ano gostaríamos de receber um equipamento desportivo do Benfica, outro do Sporting, um “tamagochi”, um carro telecomandado, uma bola, muitas bonecas, uma moto, comboios, livros, e também um telemóvel da terceira geração», dizem as cartas escritas, e outras ditadas, pelas 11 crianças do Refúgio Ana Luísa, na Guarda. Mas mais do que prendas, o que todas gostariam de receber era uma família que lhes desse carinho e as tratasse bem. Como isso não é possível para já, e para não passarem a noite de Consoada na instituição, as crianças vão ser acolhidas nas casas das funcionárias. «Não estão com as famílias deles, mas estão com famílias que gostam muito deles», diz Dina Varandas, assistente social da “casa”, como é carinhosamente tratada. É um Natal diferente e mais risonho em perspectiva.
O Refúgio Ana Luísa é o único Centro de Acolhimento Temporário do distrito da Guarda, pertence à Fundação José Carlos Godinho Pereira de Almeida e acolhe crianças em risco dos 0 aos 12 anos. «Tentamos proporcionar um Natal diferente às nossas crianças», refere Dina Varandas, por isso cada funcionária leva uma criança para sua casa. «É muito importante que elas não tenham a ideia do que é passar o Natal numa instituição e até acabam por dormir nas nossas casas nessa noite», frisa a assistente social. As crianças que entram para esta instituição são de risco, «que pode ser físico, psicológico, financeiro, entre outros», explica Margarida Santos, educadora de infância. Mas no Refúgio «todas essas necessidades básicas são satisfeitas», garante a responsável pedagógica, adiantando que estas crianças têm «os mesmos sonhos que as outras e ainda acreditam no Pai Natal». Por isso, no dia 24 à meia-noite vão receber muitas prendas nos seus sapatos. E o imaginário das crianças não vai ser defraudado, desvenda, porque «alguns dos seus desejos vão ser mesmo satisfeitos», promete Margarida Santos, graças ao apoio de algumas instituições e a muitos particulares que, por solidariedade, especialmente nesta altura do ano, dão muitas prendas.
No entanto, «estas crianças dão mais valor a determinadas coisas que outras não dão», como uma peça de roupa ou uma mera guloseima, porque «de onde vêm não tinham nada», recorda. Apesar de falarem pouco da família, quando o fazem, «não falam da sua, mas da que gostariam de ter», constata a educadora. Ali, as crianças são tratadas como se fossem filhos: «Quando os vamos buscar à escola dizemos “vamos para casa”. Outras vezes vamos às compras ao supermercado», tudo como se fossem uma grande família, exemplifica Margarida Santos e Dina Santos. Ao final do dia, há também duas professoras que, de forma voluntária, os ajudam a fazer os trabalhos de casa. Foi para todas essas pessoas e mais alguns convidados que as crianças dedicaram uma música sobre o Menino Jesus, na Festa de Natal do Abrigo, na passada terça-feira. Os ensaios decorreram com alguma turbulência e muita traquinice, próprio das suas idades, mas o resultado acabou por ser muito aplaudido.
Histórias com um final feliz
A grande maioria destas crianças vem de famílias com graves carências sociais, económicas, com problemas de desemprego, habitação, álcool, droga, doença mental ou prostituição. Neste Centro de Acolhimento Temporário, como o próprio nome indica, deviam ficar temporariamente, mas «o normal é um ano, com uma revisão ao meio do ano», indica a assistente social. No entanto, as crianças não saem do acolhimento enquanto o seu projecto de vida não estiver resolvido. Há três possibilidades: «A reintegração na própria família nuclear ou na família alargada (avós ou tios); a institucionalização ou a adopção», enumera a responsável. Até ao momento, as histórias destas crianças têm tido um final feliz, «já que a grande maioria tem sido reintegrada na família, não na nuclear, mas na alargada», indica Dina Santos. Mas todo este processo «é muito moroso», lamenta, recordando a história de duas crianças que ali estiveram dois anos e meio, e uma outra que foi com dias para a instituição e saiu de lá já com um ano e alguns meses. «Como não há um Tribunal de Menores, estes processos são ainda mais lentos», queixa-se.
Quando foi criado em 2000, em instalações provisórias, onde ainda se encontra, o Refúgio Ana Luísa tinha duas valências: as mulheres vítimas de violência doméstica e as crianças em risco, naturais ou a residir no distrito. Mas desde 2004 que só tem esta última. A instituição tem capacidade para 12 crianças, apesar de agora estarem só 11, uma vez que ainda não foi ocupada uma vaga deixada vazia recentemente. «Normalmente, espera-se pelo final do ano lectivo», constata a assistente social. Mas ainda há muitas crianças em risco na lista de espera, principalmente, provenientes de Seia e Gouveia. De resto, no futuro o centro de acolhimento vai ter novas instalações.
Patrícia Correia
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