Para muitos, as próximas eleições presidenciais serão uma oportunidade para a recomposição do xadrez político nacional. A direita, pelo menos à superfície, fez uso do seu pragmatismo, alinhando com Cavaco. Mesmo as vozes discordantes, algumas no próprio PSD, optaram pelo reconhecimento tácito do Professor, esperando pelo seu momento, numa possível vitória, para negar a sua situação de reféns. A esquerda demonstrou que a unicidade lhe é estranha, falando a várias vozes. Ora, sabendo-se que esta campanha se irá centrar nas qualidades substantivas dos candidatos e não tanto numa expeditiva proclamação de um ideário, passarei a analisar três personagens desta trama. Começo por Francisco Louçã. Aparece por duas razões: assim poderá saber quanto vale em termos eleitorais o partido que o apoia; tem um palco à disposição para desenrolar o seu projecto, que extravasa claramente as competências de um Presidente. Louçã está imparável: parece que comprou uma caçadeira e serrou os canos para assim disparar em todas as direcções. Nem se coibiu de criticar os advogados nomeados oficiosamente no âmbito do apoio judiciário. Esquece-se o tribuno de que 80% destas nomeações recaem sobre estagiários e advogados no início de carreira. E se o empenho demonstrado pelos patronos na esmagadora maioria dos casos é indesmentível, outro tanto não se passa com o pagamento dos respectivos honorários pelo Estado, que muitas vezes demora três anos! No fundo, Louçã detesta as profissões liberais e, como bom ex-trotsquista, detesta a liberdade. Tomando demasiado a sério a sua qualidade de economista, pouco lhe interessa a vida enquanto experiência aberta. Mário Soares: eis uma entrada garantida em qualquer enciclopédia que reflicta a história do séc. XX. De substantivo passou a adjectivo, um atributo a que poucos poderão almejar. O seu aparecimento extemporâneo não deixa margem para dúvidas: até ao fim, não deixará a truculência tribunícia por mãos alheias. Embora sem a virtus rígida de um Cícero, sobeja-lhe a combatividade de um Jean Jaurés. Ao contrário de muitos, não encaro a sua idade como um impedimento natural à sua candidatura. Poder-se-á questionar a estratégia errática do partido que o apoia, que desembocou num messianismo improvável, mas não a idade do candidato. É que, para determinados homens ou mulheres, a idade é o penhor mais inefável da sua imortalidade. Falo da grande imortalidade, que Kundera define como a “recordação de um homem no espírito dos que não o conheceram” e a que, segundo ele, só acederão os artistas ou os homens de Estado. É evidente que Soares preferiu assumir o risco de inocular uma derrota no que já lhe pertencia por direito próprio, em vez de se conformar com uma imortalidade risível, que um estatuto senatorial seguramente lhe ofereceria. Resta saber como conseguirá explicar a sua conhecida aversão à globalização económica, pugnando pela função reguladora dos Estados, quando Chomsky demonstrou que esta, nalguns casos, é a outra face do neoliberalismo. Por último, a candidatura de Manuel Alegre é a prova de que o labor político e o trabalho poético podem ser apenas degraus numa escada cujo topo é a acção, utilizando palavras de Hannah Arendt. De todos, é aquele que parece não desconhecer que um compromisso político é, sobretudo, um compromisso moral. Deixarei para outros a exaltação das suas inegáveis virtudes cívicas, o particular significado de um homem que poderá mobilizar o país que fica de fora das nomenclaturas partidárias. Quando diz Pátria, muitos não deixarão de sorrir com a conotação atávica da palavra. Mas não. É a ressonância poética fundamental que deveria interessar: Alegre fala da Pátria da mesma forma que Pascoaes o faria. Quando agora corre, é “pelo orvalho dentro. O orvalho de muita manhã…como no meio da alegria, pelo orvalho parado da noite…Levava uma flecha …Brilhava.” (Herberto Hélder)
Por: António Godinho


