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Pois, Pois

EXCESSO DE PROXIMIDADE. Observo os outdoors de dois candidatos à presidência da república. Um quer olhar-nos “olhos nos olhos”, outro diz que “sabe ouvir os portugueses”. É provável que entretanto apareçam outros candidatos a oferecer-se para nos cheirar e acariciar.

Donde vem esta disponibilidade afectiva dos candidatos? Da mítica necessidade de proximidade ao eleitor. Supostamente, o bom povo quer sentir os candidatos, roçar-se nos candidatos, tocar-lhes. Esta ideia abstrusa só pode ter saído da cabecinha da malta do marketing político. Os estrategas de Soares pretendem mesmo que o seu candidato faça uma campanha porta a porta. Parecem não perceber que dessa forma estão a enterrar o homem vivo. Nenhum cidadão no seu perfeito juízo quer ser visto próximo de um político. Ninguém quer sofrer o vexame de ser acusado de ter sido apanhado a menos de 500 metros desta classe mal amada. Os desgraçados que os acompanham nas campanhas, coitados, estão lá obrigados, a pagar favores. No fundo, os políticos até sabem disto. Não é com certeza por acaso que escolhem os mercados, as feiras, os lares de terceira idade e as fábricas para fazerem as suas aparições públicas. Tudo lugares onde as multidões que lá se encontram não têm tempo suficiente para desmontar a tenda e pôr-se a milhas.

A verdade é que o bom povo quer ver os seus representantes à distância. No conforto dos gabinetes a executar o trabalho entediante de ler relatórios e outra literatura do género.

Não há volta a dar. Os portugueses não gostam de políticos, sobretudo quando estes são “profissionais” e, pior ainda, quando se dizem “profissionais”.

MENOS PROXIMIDADE. Uma boa notícia. O governo pretende acabar com mais de 200 concelhos e com centenas de freguesias. Brindo a isso. O país não precisa de nenhuma regionalização ou de qualquer outra estrutura intermédia entre o poder central e o poder local. Tal serviria apenas para atrapalhar, aumentando a despesa, o número de funcionários e a burocracia. O que é preciso é fundir concelhos ou então, nalguns casos, dividir concelhos. Parece que a ideia é acabar com os que têm menos de 10 mil habitantes. Uma proposta razoável. No distrito da Guarda desapareceriam do mapa oito dos actuais 14. Escapavam à tangente Pinhel e Trancoso (têm, respectivamente, 10 545 e 10 682 habitantes) e, mais à vontade, o Sabugal (14 381), Gouveia (15 827), Seia (27 640) e, claro, a Guarda (43 981). Sem dúvida que esta medida permitiria uma utilização mais racional e eficiente dos escassos recursos humanos e materiais do país e um melhor planeamento e ordenamento do território. Estou convencido de que a maioria do povo não se importaria nada de ser integrado num concelho maior. As pessoas querem é ver os seus problemas resolvidos e a sua terra a desenvolver-se. As forças de bloqueio são as máquinas partidárias que de repente ficariam sem uma série de tachos para distribuir. Não estou a ver os senhores do poder local perderem os seus pequenos feudos de poder pessoal sem dar luta. Mas o governo deve estar ao serviço das populações e do bem público e não das cliques partidárias. Espero que este projecto seja mesmo para avançar.

Por: José Carlos Alexandre

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