Região

Dura Automotive com os dias contados

Escrito por Luís Martins

Trabalhadores sugerem transferência de linha de produção do Carregado para Vila Cortês do Mondego para garantir laboração e evitar o fecho da fábrica após saída do seu maior cliente no final de agosto.

Os trabalhadores da Dura Automotive temem que já tenha começado a contagem decrescente para o fecho da empresa em Vila Cortês do Mondego (Guarda), que vai perder o seu maior cliente no final de agosto.
Sem respostas da administração, cerca de 90 dos 160 funcionários participaram na segunda-feira num plenário que trouxe mais dúvidas que certezas quanto ao futuro de uma das mais antigas fábricas de componentes e acessórios para automóveis a laborar no concelho. «Se até 3 de maio não houver novidades iremos até ao Ministério do Trabalho e Solidariedade Social, em Lisboa, para pedir explicações e defender os nossos postos de trabalho», adianta Paulo Ferreira, da comissão de trabalhadores. O dirigente sindical lamenta o silêncio da administração perante o fecho da linha de produção da Boco, um fornecedor da Mercedes que atualmente é responsável por 50 por cento da faturação da Dura na Guarda. A sua saída ditará o despedimento de, pelo menos, 50 pessoas, mas o receio é que se traduza no fecho da fábrica. «As pessoas vão ter que sair todas porque não há trabalho», receia Paulo Ferreira, para quem uma das alternativas seria deslocalizar alguma produção do Carregado. «Essa fábrica está a abarrotar de trabalho e é preciso alugar pavilhões. Em Vila Cortês têm instalações próprias, mão de obra qualificada, pelo que se transferissem algum para cá seria muito bom», reconhece o porta-voz dos trabalhadores, para quem o Governo tem aqui uma oportunidade para «mostrar que quer apoiar e se preocupa o desenvolvimento do interior».
«Se a Dura fechar o que vai ser do Vale do Mondego?», interroga o dirigente da comissão de trabalhadores. Horácio Santos e a mulher temem «o pior» porque ambos podem ser afetados pelo fim das encomendas da Boco. «Se a fábrica fechar ficaremos numa situação muito complicada, pois não temos alternativas de emprego na região», considera quem trabalha há 20 anos na empresa. A residir no concelho vizinho de Celorico da Beira, este funcionário de 44 anos já estar a deitar contas à vida porque tem «despesas fixas ao final do mês e um filho a estudar, vai ser muito complicado». Rui Paciência, que reside na Lageosa do Mondego (Celorico da Beira), também receia que «os dias desta empresa estão contados» com a saída daquele cliente se não houver nenhuma medida. «Só Governo pode fazer alguma coisa», alerta, constatando que na região «não há alternativas de emprego para toda a gente, possivelmente uma das soluções para alguns de nós será mesmo sair daqui, ir para outra região».
Na sua opinião, o fecho da Dura vai acentuar ainda mais a desertificação das aldeias próximas dos concelhos da Guarda e Celorico. «Neste momento só sou eu a trabalhar porque a minha esposa não arranja trabalho na região. Se sair da Dura o mais certo é irmos embora daqui», lamenta o trabalhador, adiantando que se consta que «a Dura, a nível mundial, está em crise». No entanto, pela sua parte não baixa os braços: «Cabe-nos a nós lutar pela continuidade da empresa e ao Governo ajudar-nos, porque estamos numa região desertificada, envelhecida e sem outros recursos», afirma. Rui Paciência também espera pela «luta» da Câmara da Guarda, pois «se não houver trabalho não adianta fazer rotundas bonitas porque as pessoas têm que ir embora». E se assim for, o cenário está traçado: «O comércio local vai fechar e estas aldeias serão um deserto. Há 20 anos, quando andava a estudar, isto estava mais evoluído do que está hoje, temos andado para trás a olhos vistos», critica. Tanto assim que, com oito anos de empresa, já admite que não vai ter «a mesma sorte» do pai, que se reformou na Dura após 29 anos de trabalho. «Eu já não vou ter a mesma sorte pelo andar da carruagem», diz.

O «pesadelo da Delphi»

A União de Sindicatos da Guarda vai questionar o Ministério da Economia, através dos deputados do PCP na Assembleia da República, sobre a situação da Dura Automotive em Vila Cortês do Mondego. «Se nos calarmos, as coisas podem ser terríveis», disse o coordenador José Pedro Branquinho, que esteve presente numa ação realizada à porta da fábrica na segunda-feira.
O sindicalista lembrou que há uns anos fez-se «um investimento considerável num pavilhão novo que está quase vazio», que poderia ser aproveitado para acolher alguma produção deslocalizada do Carregado, «onde há muito trabalho». E recordou também «o pesadelo da Delphi que ainda hoje se reflete na economia local da região». A Dura Automotive labora desde a década de 90 do século passado nas instalações da antiga FEMSA, em Vila Cortês do Mondego.

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