Opinião de António Ferreira: Passeio pelas ruínas

Escrito por António Ferreira

Neste tempo de perceções, chamam a atenção do público dois grandes temas: a crise da habitação e o número de habitantes do país, que terá passado de repente para mais de 11 milhões. Os problemas estão ligados, já que parece haver demasiada gente para tão poucas casas, e ambos parecem de difícil solução a curto prazo, já que a construção da habitação necessária para tanta gente vai demorar anos. Posto isto, há que considerar especialmente grave haver tantas casas abandonadas ou em ruínas, em zonas privilegiadas do centro das cidades, como é o caso da Guarda, como é grave também haver organismos públicos instalados em locais apropriados para habitação, como é o caso, entre outros, da secção criminal da PSP, da delegação da Guarda da AIMA e da Repartição de Finanças.
Entre os muitos edifícios fechados e sem qualquer préstimo, destaco o Hotel Turismo da Guarda, o Cine Teatro da Guarda, o edifício do antigo Clube de Caça-e-Pesca (que seria um hospital e agora não é nada), a antiga sede do Banco Nacional Ultramarino, a antiga Delegação de Saúde, o Jardim Infantil Dona Leopoldina Lopo de Carvalho, na Rua Doutor Lopo de Carvalho, para além de um sem número de prédios de habitação espalhados pela cidade, como, por exemplo, no Largo General Humberto Delgado, na Avenida Afonso Costa, na Avenida Francisco Sá Carneiro, na Rua 31 de Janeiro.
Depois há as ruínas: na Rua 31 de Janeiro, na Rua António Sérgio, em frente à central de camionagem, na Praça Velha, mesmo ao lado dos antigos Paços do Concelho, e mais adiante a velha Casa da Legião. Podíamos explorar melhor o casco velho, à procura de casas abandonadas ou em ruínas, que encontraríamos muitas, como, por exemplo, nas transversais da Rua do Comércio, mas já chega, acho que já perceberam a ideia.
Os edifícios abandonados, é sabido, acabam mais tarde ou mais cedo em ruínas. A ausência de quem dê conta de uma telha partida, de um prego enferrujado numa trave de madeira que sustente o telhado, ou de bicho da madeira a comer essa mesma trave, acaba sempre por levar, por força da incúria ajudada pela chuva e pelo vento, associadas a muitos outros fatores, ao mesmo resultado inevitável: o ruir do telhado, primeiro, e da restante estrutura, depois. Notem que o estado de ruína é muitas vezes desejado, já que prédios que estejam nessa condição pagam muito menos Imposto Municipal sobre Imóveis (IMI).
Posto isto, tenho objeções a não se fazer nada. Prédios em ruínas são um problema para os vizinhos e para a comunidade em geral, para além de que, no atual estado do mercado da habitação, implicam um desrespeito insultuoso dos interesses da comunidade.
Há caminhos, contudo. Um deles é a expropriação desses prédios abandonados ou em ruínas, após notificação prévia para obras ou para demolição total, ou a expropriação pura e simples após declaração de utilidade pública. Alguma coisa tem de ser feita, e com urgência.

Sobre o autor

António Ferreira

Deixe comentário