Opinião de João Coelho: Sustentável não é o mesmo que suficiente

Escrito por João Coelho

O que se prepara é uma rescisão de contrato que ninguém assinou. Durante décadas, os portugueses descontaram sobre uma promessa tácita: trabalha-se uma vida inteira e o Estado encarrega-se do resto. Essa promessa nunca foi formalmente revogada. Não houve conferência de imprensa a anunciá-la. Vai apenas deixar de ser cumprida, e a conta recai sobre quem hoje tem entre 35 e 50 anos, que descontou desde sempre para um acordo que será respeitado na letra e desmentido no essencial.

O sistema de pensões português não está em crise. Está a funcionar como foi desenhado, só que para um país que já não existe. Nasceu nos anos 70, quando havia quatro trabalhadores por cada reformado, a esperança de vida mal ultrapassava a idade da reforma e as famílias eram numerosas. Hoje há menos de dois trabalhadores por cada reformado, vive-se até aos 85 e a natalidade é das mais baixas da Europa. O sistema não falhou, e dizem-nos que é sustentável, o que é verdade. O problema reside noutro lado.

O equívoco está numa só palavra. Sustentável não é o mesmo que suficiente. A Comissão Europeia confirma a solvência das contas da Segurança Social até ao fim do século, e está certa. Mas o mesmo relatório projeta que a pensão média desça dos cerca de 70% do último salário que valia em 2022 para 38,5% em 2050, se nada mudar. Um sistema pode pagar 38% do último ordenado com pontualidade exemplar e continuar perfeitamente solvente para o Estado, ao mesmo tempo que se revela curto para quem o recebe.

O que se prepara é uma rescisão de contrato que ninguém assinou. Durante décadas, os portugueses descontaram sobre uma promessa tácita: trabalha-se uma vida inteira e o Estado encarrega-se do resto. Essa promessa nunca foi formalmente revogada. Não houve conferência de imprensa a anunciá-la. Vai apenas deixar de ser cumprida, e a conta recai sobre quem hoje tem entre 35 e 50 anos, que descontou desde sempre para um acordo que será respeitado na letra e desmentido no essencial.

Há, contudo, quem já tenha resolvido o problema sem dar nas vistas. Quem trabalha numa multinacional com plano de pensões conhece a mecânica: a empresa canaliza mensalmente uma fatia do salário para um fundo autónomo, muitas vezes a par de uma contribuição própria. Se empresa e trabalhador aplicarem cada um 5% do salário, trinta anos de capitalização podem gerar um complemento que rivaliza com a própria pensão da Segurança Social. O fundo é independente da empresa, as contribuições escapam aos descontos sociais e o resgate é tributado a 8%, contra os 28% que pesam sobre a generalidade das mais-valias. Não é um privilégio de ricos. É um instrumento que existe e a que a maioria dos trabalhadores portugueses nunca terá acesso, pela simples razão de trabalhar em empresas que não o oferecem. Em toda a Europa, só um em cada cinco trabalhadores tem um fundo de pensões profissional, e em Portugal a fatia é ainda menor: mais de 80% dos portugueses contam quase só com o Estado para a reforma.

Para quem fica de fora, restam duas alternativas com substância. A primeira é o PPR, o produto mais conhecido: deduz até 400 euros anuais no IRS a quem tem menos de 35 anos e tributa o resgate a 8%, cumpridas as condições. O segredo está nos detalhes: as comissões de gestão e o perfil de risco variam muito de produto para produto, e ao longo de décadas essas diferenças pesam tanto como o benefício fiscal à entrada. Escolher bem importa mais do que subscrever depressa. A segunda alternativa são os ETF, fundos cotados em bolsa que seguem índices mundiais com custos dez vezes inferiores, entre 0,1% e 0,3% ao ano. Com o novo regime fiscal de 2026, as mais-valias sobre aplicações de longo prazo passaram a ser parcialmente isentas. Protege menos à saída do que um PPR, mas é mais barato, mais líquido e, ao cabo de duas ou três décadas, costuma render mais.

O problema, então, não é a falta de instrumentos, mas o acesso desigual a eles. O benefício do PPR é uma dedução ao imposto, e quem não tem coleta de IRS, como muitos jovens abrangidos pelo IRS Jovem ou os rendimentos mais baixos, não o aproveita de todo. Mesmo quem o aproveita recebe bem menos do que parece: entre 2014 e 2023, o benefício fiscal médio do PPR foi de apenas 161 euros por ano, porque o teto das deduções está quase sempre preenchido com saúde e educação. Existe formalmente para todos e vale, na prática, para quem já tem margem para poupar. A desigualdade da reforma não começa aos 66 anos. Começa agora, na distância entre quem consegue pôr dinheiro de lado e quem chega ao fim do mês sem o conseguir.

Outros países olharam para o mesmo abismo e construíram pontes. O Reino Unido inscreve, desde 2012, qualquer trabalhador por defeito num fundo ligado ao empregador, e deixa qualquer cidadão abrir uma ISA, uma conta onde se investe em ações ou fundos sem pagar um cêntimo de imposto sobre os ganhos. Os Estados Unidos têm as contas 401(k) e Roth, onde o capital cresce e se levanta sem tributação, dentro de certos limites. A Irlanda arranca este ano com a inscrição automática. Portugal conhece estes modelos ao pormenor, e prepara supostamente o seu: depois de Bruxelas pedir aos Estados-membros que adotem a inscrição automática, o Governo anunciou no início do ano um plano para reforçar as pensões complementares. Meses passados, continua por apresentar.

É esse o ponto. O caminho está identificado, copiado de quem já o percorreu, e mesmo assim continua à porta. Reformar a poupança complementar custa caro a curto prazo e só dá frutos daqui a duas ou três décadas, muito para lá de qualquer mandato. É o tipo de decisão que nenhum calendário político premeia.

O contrato não foi rescindido. Vai expirar em silêncio. E quem o souber a tempo terá uma reforma; quem não souber, terá uma surpresa.

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João Coelho

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