Quando pensamos na morte de uma estrela, tendemos a imaginar o fim inevitável de tudo o que a rodeia. Afinal, se a estrela desaparece, que destino poderão ter os seus planetas? Durante décadas, a resposta parecia evidente: seriam destruídos ou expulsos para o espaço. No entanto, um estudo recentemente divulgado veio mostrar que a realidade pode ser muito mais surpreendente.
Uma equipa internacional de astrónomos analisou o exoplaneta WD 1856 b, um gigante gasoso que orbita uma anã branca, o remanescente de uma estrela semelhante ao Sol após o fim da sua evolução. As novas observações, realizadas com o Telescópio Espacial James Webb, permitiram estudar este sistema com um detalhe sem precedentes e reforçam a hipótese de que o planeta sobreviveu à transformação dramática da sua estrela.
À primeira vista, esta conclusão parece improvável. Quando estrelas como o Sol esgotam o combustível que alimenta as reações de fusão nuclear no seu interior, expandem-se até se transformarem em gigantes vermelhas. Durante esta fase, podem atingir dimensões suficientes para engolir os planetas mais próximos. Posteriormente, libertam as suas camadas exteriores e deixam para trás apenas um núcleo extremamente denso, designado por anã branca. Trata-se de um objeto com uma massa semelhante à do Sol, mas comprimida num volume comparável ao da Terra.
O aspeto mais intrigante é que WD 1856 b completa uma órbita em cerca de 34 horas, encontrando-se extremamente próximo da anã branca. Se sempre tivesse ocupado esta posição, teria sido inevitavelmente engolido durante a fase de gigante vermelha. Os investigadores defendem, por isso, que o planeta se formou muito mais afastado da estrela e que, milhões de anos após a sua transformação em anã branca, interações gravitacionais com outros corpos do sistema o conduziram gradualmente para a órbita atual.
Esta descoberta vai muito além da identificação de um planeta invulgar. Constitui uma oportunidade única para compreender um possível cenário para o futuro do nosso próprio Sistema Solar. Daqui a cerca de cinco mil milhões de anos, o Sol seguirá uma trajetória semelhante, transformando-se primeiro numa gigante vermelha e, posteriormente, numa anã branca. Embora a Terra tenha poucas probabilidades de sobreviver à fase de expansão da estrela, os planetas gigantes poderão permanecer no sistema e ver as suas órbitas alteradas ao longo de milhões de anos.
O estudo de sistemas como o de WD 1856 b permite aos astrónomos testar modelos de evolução dos sistemas planetários e compreender de que forma a gravidade continua a moldar o destino dos planetas muito depois da morte da estrela que lhes deu origem. A história de um sistema planetário não termina quando a estrela deixa de brilhar; pelo contrário, pode prolongar-se durante milhares de milhões de anos, originando configurações que, até há pouco tempo, eram consideradas altamente improváveis.


