Grotesco

Simplificando: a imagem de Joe Berardo a rir-se na Assembleia da República foi o mais grotesco que vimos em muito tempo!
Alguns dias antes, quando vimos os deputados a discutirem (a gatafunharem como um grupo de miúdos na escola) a versão final do diploma sobre a recuperação do tempo de serviço dos professores e, depois, a imagem de Rui Rio a desdizer o que o PSD tinha dito, já era do mais grotesco que vira em política. Pelo menos eu! Mas, naturalmente, a substância do debate foi substituída pelas diferenças ideológicas e partidárias. E aquilo que a mim me pareceu hilariante, a outros pareceu razoável ou lamentável, consoante o lado da barricada. Como é evidente, querer ganhar mais é legitimo. E todos queremos mais e melhores condições de vida. Temos direito a viver melhor, a ter melhor saúde, melhor educação, melhor justiça, mais segurança… menos horas de trabalho, mais férias. E um largo etc., mas não é possível dar tudo a todos. O salário médio em Portugal é baixo, comparativamente com a Europa, e por isso todos os que ganham abaixo da média (860 euros) defendem que os demais ganhem menos. Devia ser ao contrário.
E assim voltamos ao grotesco: Joe Berardo a rir-se dos portugueses, a declarar que pessoalmente não tem dívidas, ainda que três bancos lhe reclamem perto de mil milhões de euros de dívidas. Pior, Berardo representa o tempo da corrupção e amiguismo grandioso. Um tempo em que uns poucos tomaram conta de tudo. Por culpa desse “tempo” não há dinheiro para pagar mais aos professores ou a quem quer que seja. Não há, nem haverá nas próximas gerações. Porque os portugueses com mais de 45 e menos de 60 ficaram parados no tempo, foram dez anos de regressão, sem progressão na carreira (em qualquer carreira, no ensino ou em qualquer outra; no público como no privado, porque de 2008 a 2018, todos andámos para trás), as gerações seguintes terão, doravante, de pagar o regabofe de José Sócrates e de toda uma geração de políticos corruptos e de dirigismo irresponsável. Os profissionais da política sacaram tudo o que havia e nada sobra para as novas gerações. O domínio dos partidos trouxe-nos até aqui, ao domínio do grotesco, de um regime corrupto e de interesses, de silêncios em troca do emprego, do “tacho”, do lugar, da cunha, do facilitismo… Berardo ri-se de nós, porque durante anos foi idolatrado. Ri-se de nós porque durante anos nos calámos perante um regime de interesses nefastos ao país!

Sobre o autor

Luís Baptista-Martins

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