O desiderato de uma “universidade na Guarda” faz parte do imaginário dos guardenses há dezenas de anos. Foram muitas as vezes que na cidade mais alta se ouviram vozes de apelo à instalação, não apenas de ensino superior, mas de uma universidade. E muitos foram os políticos que alinharam nesse diapasão, com promessas e reivindicações que nunca passaram disso mesmo.
Provavelmente, o primeiro ensejo de instalação de uma universidade na Guarda terá ocorrido nos primeiros tempos da República. Como poderemos ler no livro “Recomeços – João Bento Raimundo, História de Vida”, de Rui Isidro, foi João Lopes Soares (pai de Mário Soares), primeiro governador civil do distrito, quem defendeu a instalação na cidade da Universidade Popular da Guarda, que não passaria das intenções.
Em 1973, no contexto da reforma do ensino superior promovida por Veiga Simão (natural da Guarda), então ministro da Educação, nasceu uma rede de ensino superior de institutos politécnicos e universitários para responder às necessidades de formação curta e predominantemente técnico-profissional. Foi assim que nasceu o Instituto Politécnico da Covilhã, e os de Vila Real, Leiria, Tomar, Setúbal, Faro ou de Évora, que pouco depois passaria a Universidade. O da Covilhã recebeu os primeiros alunos em 1975, em 1979 passou a Instituto Universitário e em 1986 a Universidade da Beira Interior. Na sequência do mesmo decreto-lei de 11 de agosto de 1973 foi criada a Escola Normal Superior e de Informática da Guarda, um instituto que pretendia incluir o Magistério Primário e evoluir para o ensino de áreas técnicas e científicas, nomeadamente para a informática. Porém, entre o período revolucionário, a habitual falta de convergência de interesses e a incapacidade política, o processo não se desenvolveu. Só em 1980, num governo liderado por Sá Carneiro, um decreto-lei de agosto criava os institutos politécnicos da Guarda, Viana do Castelo, Portalegre e Leiria, que também tinha ficado parado desde a reforma de Veiga Simão. Mas, depois de mais alguns anos a arrastar os pés, foi em 1985, com a presidência de João Raimundo, que o Instituto Politécnico da Guarda avançou.
Mesmo depois do início do IPG, em 1985, muitos sempre acharam que a Guarda merecia uma instituição designada de Universidade. Por exemplo Álvaro Amaro, primeiro como deputado pelo distrito e depois como presidente da Câmara da Guarda, defendeu mesmo a instalação de uma universidade privada, mas para além das boas intenções e de eventuais contatos, nunca houve nada, nem pública nem privada.
Nas últimas eleições autárquicas (2025) o Chega prometeu criar a Universidade da Guarda com um suposto (e estranho) apoio da universidade israelita de Telavive – uma ilusão de que não se voltou a ouvir falar.
Entretanto, no IPG trabalhava-se em prol da afirmação do Politécnico da Guarda como instituição de referência no ensino, na investigação e na ciência. Com a entrada do IPG na rede UNITA – uma aliança universitária europeia integrada por uma rede de 12 universidades de sete países que promove a cooperação académica internacional em regiões de montanha – o IPG passou a ter três centros de investigação e três doutoramentos.
O Politécnico da Guarda encontra-se num momento histórico de transição. Até muito recentemente, os politécnicos em Portugal não podiam conferir o grau de doutor, mas a lei mudou e a instituição já tem os seus três primeiros doutoramentos. Isso e ter três unidades de investigação reconhecidas – o IPG está na primeira linha para passar a universidade, com uma excelente classificação da A3ES.
Há dias o Governo promulgou a mudança de forma político-administrativa dos politécnicos de Leiria e Porto para Universidade de Leiria e Oeste e Universidade Técnica do Porto. Ao contrário da maioria dos politécnicos que não têm classificação de muito bom da A3ES, e por isso não poderão ainda mudar a sua designação, estará para breve o fim da denominação de Instituto Politécnico da Guarda para a de Universidade Politécnica da Guarda. Esta quarta-feira comemora-se o Dia do IPG, quiçá a última sessão solene do Instituto Politécnico da Guarda. Falta publicar o novo RJIES, que deverá ser promulgado dentro de dias pelo Presidente da República, levar a proposta ao Conselho Geral e ser aprovada, para nascer, a Universidade Politécnica da Guarda. Parabéns a Joaquim Brigas, presidente do IPG; Parabéns a todos os professores e investigadores que deram dimensão científica ao IPG; Parabéns à Guarda.


