Arteterapia

Escrito por João Mendes Rosa

Linguagem, cognição e pensamento simbólico – o homem estava finalmente munido das características mentais (Jean Piaget) que lhe permitiriam interagir espiritualmente com o meio e libertar-se da sua animalidade inata, dos ditames da mera sobrevivência. Foi há cerca de 65 mil anos e a conclusão – recentíssima (publicada na revista “Science” de 23 de fevereiro de 2018) – vem confirmar estudos anteriores; nós próprios desenvolvemos um arrazoado ensaístico sobre o tema publicado no nº1 da revista “Praça Nova” – pertence, entre outros, ao colega e arqueólogo português João Zilhão (Universidade de Barcelona), feita a partir dos estudos e datação pelo inovador método do urânio-tório (U-Th) – daquelas que serão porventura as gravuras rupestres mais antigas de todo mundo e que fazem da Península Ibérica o berço da arte universal: as Grutas de Maltravieso (Cáceres), Ardales (Málaga) e La Pasiega (Cantábria). Assim, as representações pictóricas estudadas, mormente o negativo de uma mão e um signo linear escadiforme, remetem para a conclusão de que os neandertais, sem se confinarem ao figurativo, eram já dotados de capacidade de pensamento abstrato e simbólico, ao contrário do que se vinha defendendo.
Dou por mim muitas vezes a conjeturar sobre essa ignota e remota primeira madrugada da arte, protagonizada por aquele indivíduo da espécie Neandertalensis que se recusara sair para a habitual caçada, preferindo ficar no recesso da gruta a pintar, a representar a sua visão subjetiva e intelectiva do mundo, dos seres e dos fenómenos – sendo, porventura, alvo de escárnio por parte dos companheiros, ávidos de prestações próprias da sua destreza e vigor corpóreo. Mal imaginaria – esse pioneiro – que iria operar uma das maiores transformações na humanidade: conceber algo destituído de carácter utilitário ou funcional (como era o caso de um biface ou de uma ponta de seta). Esse primeiro criativo havia gerado algo de excecional, que remetia pela primeira vez para o plano do etéreo, as instâncias do belo, do sublime, provocando uma ampla gama de sensações e emoções até aí porventura inapreciáveis: deleite, agradabilidade, volúpia – a possibilidade do registo material de um momento irrepetível de contemplação. A humanidade abria-se assim para os domínios do magico e do simbólico…
A expressão artística faz parte do longo devir do homem; pela arte e com a arte libertou-se da sua animalidade mais inata – que remetia para a praxis da mera sobrevivência – para ascender à dimensão da insubstancialidade emancipadora. E paulatinamente se foi apercebendo que a Arte mais do que veicular uma mensagem, é responsável por ser propiciadora de estados de espírito, tendo um efeito libertador, terapêutico e de desenvolvimento pessoal. Além de tudo a arte sensibiliza; e os seres sensíveis às aportações estéticas fazem uma sociedade melhor.
O surgimento, a partir do primeiro quartel do século XX, da chamada “Arteterapia”, introduzida enquanto ferramenta terapêutica dos profissionais de saúde mental, ao descobrir-se que alguns indivíduos que sofriam de transtornos comportamentais e, consequentemente, problemas de adaptação social, desenvolviam mecanismos de autossuperação pela prática e a convivência artística. Desde então para cá, numa sociedade violentamente globalizada – e mais recentemente – com a generalização de perturbações do foro psicológico mercê de um quotidiano célere e imediatista, repleto de desafios, dificuldades, frustrações e exigências – redundando naquela que lhe chamam já “a doença do século”, a depressão – dar lugar à arte tem gerado efeitos reativos surpreendentes no combate a essa “epidemia”.
Permita-se-me que particularize: quando vemos tanta gente a desfrutar da Arte na cidade da Guarda – no antigo Cine-teatro, no Museu, na galerias do mesmo, no TMG, nos vários espaços expositivos improváveis, nos ateliers ao vivo – pergunto se uma urbe que dá protagonismo à arte não estará mais atreita a propiciar um mundo menos perturbado, mentes mais esclarecidas e cidadãos mais realizados e felizes. Porque, como diria Jung, «a Arte é a expressão mais pura que existe na demonstração do inconsciente de cada um. É liberdade de expressão, é sensibilidade, criatividade, é vida».

* Escritor

Sobre o autor

João Mendes Rosa

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