P – Quais são as novidades deste ano na Feira de São Bartolomeu, a Feira Franca mais antiga do país?
R – A Feira de São Bartolomeu é o maior evento comercial da região das Beiras e Serra da Estrela e o mais antigo também e, portanto, tem uma tradição muito enraizada, onde marca muitas vezes o ritmo da comunidade ao longo do ano. É uma feira com 753 anos, um evento muitíssimo longevo e que precisa de ser refundado. Nós vamos fazer isso este ano, à semelhança do que temos vindo a fazer com outros eventos do concelho de Trancoso. Este ano a Feira de São Bartolomeu vai ter mais 3 mil metros quadrados de área de exposições e vai entrar no Parque Municipal, onde vai ser instalada uma zona para animais de estimação com a participação do canil municipal para a adoção de animais e algumas empresas desta área – vai ser a nossa “Pet Zone” – e funcionar também como refúgio climático por causa do calor. Além deste espaço, vai ser criada uma segunda zona, entre o Pavilhão Multiusos e a área de concertos, que será um ginásio ao ar livre com atividade física – aulas de “cycling”, zumba, “Pilates” e atividades diferentes para quem vem à feira. E vai haver ainda uma nova área de diversões. Já nas traseiras do Pavilhão Multiusos será instalada uma tenda “gaming”, que atualmente é um negócio completamente florescente com adeptos em todo o mundo. Desta forma, os apaixonados e amantes por videojogos podem conhecer tecnologia e jogar na própria Feira de São Bartolomeu. As pessoas vêm à feira para se encontrar e ter novas experiências, e estes encontros levam a que o negócio aconteça – assim, vamos ter também uma zona para que os clientes e empresários se encontrem e ainda uma zona de conferências.
P – É a primeira feira enquanto Presidente da Câmara e já tem uma certa amplitude de alterações para o certame…
R – A Feira de São Bartolomeu é um fenómeno muito antigo que não vai acabar, porém as feiras não vão ser aquilo que eram. A atualização aos novos tempos é obrigatória. Ainda há 30 ou 40 anos as pessoas esperavam pela feira para conhecer as novidades de determinada área – seja automóveis, mobiliário, etc…. As pessoas compravam na feira e guardavam dinheiro para esta altura. Hoje, isso não acontece, não precisamos de esperar pela feira, nem por nenhum evento, para conhecer as novidades do mercado, para fazer um negócio, pelo que as feiras tornaram-se, acima de tudo, locais de encontros. Este é um certame com grande tradição. Há uma grande tradição familiar, até de gente de geografias muito alargadas, de vir à Feira de Trancoso e eles vêm todos os anos porque gostam de cá encontrar amigos, familiares e conhecidos. Este ano vamos ter também um espaço de artes, com exposição de escultura, uma Feira do Livro, uma exposição de desenhos das crianças do concelho de Trancoso, desde o pré-escolar ao final do 1º ciclo do ensino básico, que foram desafiadas a mostrar como veem a Feira de São Bartolomeu. Posteriormente, esses desenhos serão compilados num livro para gravarmos na “memória dos tempos” aquilo que é esta feira no imaginário das crianças.
P – Como consegue explicar a longevidade do certame? Como é que Trancoso conseguiu, ao longo dos anos, manter e afirmar a sua Feira Franca e continuar a ser um dos maiores certames do interior do país?
R – Não há Trancoso sem feiras, nem há trancosenses sem feiras. Aquilo que mais marca um trancosense, o que está mais vincado na sua alma, é a Feira de São Bartolomeu. Por isso é que este ano classificámos, em Assembleia Municipal, a Feira de São Bartolomeu como património imaterial de interesse municipal, porque, de facto, é um património. Há ritmos da comunidade de Trancoso que se movem à volta, quer da Feira de São Bartolomeu, quer da feira semanal, que se realiza todas as sextas-feiras, com impactos muito grandes, como mudança de horários, transportes públicos, marcações de férias. Trancoso gira à volta das feiras e, portanto, é isso que explica esta longevidade das nossas feiras. Além disso, se não fossem também bons locais de encontro, com experiências marcantes e oportunidades de negócio, a feira já se teria extinguido. Isto significa que Trancoso soube agregar aqui um público muito vasto. Este ano, por exemplo, o município convidado da nossa feira e a Covilhã, com o qual objetivamos estabelecer e reforçar as relações.
P – A Feira costuma lotar o espaço disponível para os expositores e empresas. Quantos expositores é que participam na edição deste ano?
R – Vamos ter cerca de 140 expositores. A procura esteve ligeiramente acima da dos anos anteriores. Este é um certame que o município organiza em conjunto com a AENEBEIRA – Associação Empresarial do Nordeste da Beira e apostámos numa divulgação muito atempada. Este ano apresentámos o cartaz da Feira de São Bartolomeu na BTL, em Lisboa, e pouco tempo depois, fechámos este novo modelo de certame, que também foi muito bem recebido pelos operadores económicos, uma vez que traz novidade, daí ter resultado em muita procura.
P – Não temem ficar com demasiados espaços vazios dado o aumento da área do recinto?
R – Não temos esse receio. Queremos criar uma sensação de conforto e tranquilidade no recinto. O nosso modelo não é o das multidões, queremos que as pessoas que nos visitam se sintam confortáveis, que possam usufruir do luxo do espaço, porque é um luxo que nós temos aqui. Acreditamos que a Feira vai ficar mais rica. Há também espaço de artes e não havia, há espaço de “Gaming” e não havia, há a Feira da Mobilidade Elétrica, vai haver uma exposição de carros clássicos em parceria com o Clube Escape Livre e com o Clube de Clássicos da Guarda, recentemente fundado, que vão expor carros clássicos dentro do nosso recinto. Portanto, a Feira de São Bartolomeu deste ano vai ter mais diversidade e, para isso, precisa de mais espaço para que possa albergar toda essa diversidade.
P – Tradicionalmente, a Feira de São Bartolomeu consegue ter sempre um cartaz rico com alguns nomes sonantes e suficientemente fortes da música nacional para atrair pessoas de toda a região. O que podemos destacar do cartaz desta edição de 2026?
R – Essa parte é muito importante. As pessoas também vêm à Feira à noite para conviverem e divertirem-se. O cartaz da Feira de São Bartolomeu é tradicionalmente muito forte e este ano continua a sê-lo com nomes como os Xutos e Pontapés, Carminho, Bárbara Tinoco, Bárbara Bandeira, Plutónio, ATOA, o Festival de Folclore, que, nos últimos anos, conta sempre com a participação de um grupo de folclore internacional, sendo que desta vez participa um grupo de folclore da Andaluzia (Espanha), no dia 9 de agosto. Portanto, é um cartaz que tenta agradar a todos os públicos, porque a Feira é precisamente um evento eclético e em que temos que pensar em criar oferta para todos os públicos, todos os grupos, porque toda a gente tem que se sentir bem na Feira de São Bartolomeu.
P – Qual é o orçamento para esta edição?
R – O orçamento ronda sempre os 400 a 500 mil euros. Haverá dois dias em que a entrada é gratuita, que são os dois domingos, sendo que até às 19 horas a entrada no recinto é sempre gratuita. Os preços variam entre os quatro e os cinco euros, portanto, são bastante modestos e atrativos.
P – Para além da Feira, como encontrou o concelho de Trancoso quando chegou à cadeira maior da Câmara Municipal?
R – O concelho de Trancoso, tal como outros municípios de dimensão semelhante, tem pela frente muitos desafios, mas também tem oportunidades que nunca teve na história. Está ligado ao mundo de uma forma que nunca esteve antes, não só do ponto de vista físico, mas também do ponto de vista da informação, do ponto de vista da cultura e de tudo aquilo que nos permite esta digitalização acelerada do mundo.
P – Que projetos diferenciadores há em Trancoso neste momento que possam fazer a diferença no futuro da região?
R – A nossa linha de ação contempla três caminhos que, ao fim e ao cabo, são aquilo que penso que representa o papel dos municípios: a proteção social, que tem a ver com a educação; a ação social e aspetos fulcrais na vida das pessoas; a habitação; o progresso material… É preciso continuar a trilhar esses caminhos para criar condições, para que haja boas infraestruturas para iniciativas empresariais e para iniciativas culturais; temos de enfrentar o problema das alterações climáticas com alguma confiança e estar bem equipado ao nível da proteção civil e temos de ser um concelho que trabalha todos os dias a sua identidade. A cultura, o património, a identidade, hoje em dia são formas de desenvolvimento. Nas últimas décadas, Trancoso deu passos muito interessantes nessa área com a criação de, por exemplo, uma incubadora de empresas, novos eventos e queremos dar mais passos nessa direção, temos alguns projetos a dar os primeiros passos. A criação de um Museu da Cidade será uma obra de grande impacto a nível regional. O projeto já se iniciou há uns anos, mas agora já está na fase de construção.
P – Há muitas expetativas em relação ao Palácio Ducal, abandonado durante muito tempo, e que será o futuro Museu da Cidade. Quando é que poderá ser inaugurado?
R – Não se poderá visitar nunca antes de 2029, que é o prazo de execução da obra. Já nos damos satisfeitos se esses prazos forem cumpridos. A empreitada já se iniciou, já se começaram com os primeiros trabalhos de limpeza, de consolidação e, portanto, a obra vai seguir o seu curso normal e durará três anos. Finalmente o Palácio Ducal será o Museu de Trancoso, ansiado há vários anos e que, depois, concentrará todos os aspetos fortíssimos da identidade da nossa cidade – desde as Bodas Reais de D. Dinis, à Batalha de Trancoso, personalidades como Eduarda da Lapa, ou Albuquerque Mendes, portanto poderá ser esse centro aglutinador da nossa identidade.
P – O Centro Interpretativo do Batalha de Trancoso é um projeto que está na sua génese, vai consistir em quê?
R – O Centro Interpretativo da Batalha de Trancoso pretende colocar Trancoso na rota daquela que já é a batalha mais icónica da nossa história, que é a Batalha de Aljubarrota. Há três grandes batalhas em território nacional na crise de 1383-1385, que define a nossa Independência, a nossa nacionalidade. Não sabemos como seria, mas Portugal não existiria se essa crise não tivesse sido resolvida da forma que foi. Já visitámos o município de Fronteira, onde já foi construído um centro interpretativo da Batalha de Atoleiros e valorizado também o Campo da Batalha de Atoleiros. Tivemos depois em Aljubarrota, onde visitámos o Centro Interpretativo dessa batalha, o respetivo Centro Interpretativo e o Campo da Batalha de São Jorge, onde se deu a batalha de Aljubarrota. Os dois espaços mencionam, referem e têm conteúdos alusivos à Batalha de Trancoso, pelo que faltamos nós para completar este triângulo e, portanto, estamos a trabalhar com a Fundação Batalha de Aljubarrota para que possamos fazer algo semelhante aqui, no campo militar de São Marcos, se possível, mais ambicioso ainda, porque temos essas condições, uma vez que somos os últimos e podemos já estudar os exemplos anteriores, eventualmente melhorá-los e criar também um centro interpretativo dessa batalha aproveitando os fluxos que já estão criados à volta das outras duas batalhas. Acima de tudo, sabemos que se não houvesse a Batalha de Trancoso e se as nossas tropas não tivessem vencido os castelhanos, provavelmente não teria havido a Batalha de Aljubarrota, porque foi a derrota em Trancoso que depois desencadeou uma série de ações históricas, nomeadamente a concentração do exército castelhano num só para seguir em direção a Lisboa. E é nessa sequência que se dá a Batalha de Aljubarrota. É um acontecimento de primeira linha da história nacional e que nós temos que saber valorizar.




