P – “Cemitério de Pardais” relata “as últimas 24 horas de um homem sem importância nenhuma”. Como surgiu este romance?
R – Após a morte de um amigo de 88 anos, quase cego e a viver só… Ele transformou-se na minha personagem. Inspirado nele, surgiu a voz que nos fala da solidão, da doença, dos remorsos. Mas também a voz que nos traz um grande e verdadeiro amor, histórias de amizade e uma capacidade de resistir… enquanto espera o telefonema da neta. A última parte já foi escrita durante a doença do meu pai. Digo sempre que foi o meu romance mais chorado, pois fiz da escrita uma catarse para o que me gritava por dentro. O título nasce como uma metáfora. Em Madrid, quando explodiram a estátua do rei Filipe II, descobriram ossos pequenos, dos pardais que entravam pela boca do cavalo de bronze e morriam presos no interior, incapazes de encontrar a saída. É isso que este homem é – um espírito preso num corpo que já não lhe obedece, a tentar desesperadamente encontrar a luz libertadora…
P – Tem-se dedicado aos romances históricos, porque regressou ao romance “puro e duro”?
R – Nunca me afastei completamente. A “Trilogia da Intimidade” – o “Diário dos Infelizes”, o “Diário dos Imperfeitos” – já era isso, romance contemporâneo, nu e cru. Mas é verdade que os romances históricos têm uma armadura: a distância do tempo protege o escritor. No romance contemporâneo estamos expostos, não há onde esconder. Aqui não escrevo sobre Cabral nem sobre Vasco da Gama. Passo dos heróis nacionais para “um velho sem importância nenhuma”, mas que pode ser a pessoa mais importante das nossas vidas, um pai, um avô, um amigo… que podemos ser nós dentro de uns anos. Talvez esta seja a imagem mais assustadora e real do livro. E provavelmente a mais necessária.
P – Este livro também é uma homenagem à Covilhã onde cresceu?
R – Direi um retrato de época. Sem ser citada, a Covilhã ressoa por todo o livro como pano de fundo – as ruas, o frio, a sociedade dos empresários e dos operários, a memória de uma cidade que foi grande e que também envelheceu. A vantagem é que as cidades têm muitas vidas, como os gatos…
P – Porque sentiu a necessidade de escrever este livro? Qual é a mensagem?
R – Como disse na apresentação na Guarda, não é um livro sobre a morte, mas sobre o presente. Sobre o tempo que nos resta para nós e para os outros. As memórias que deixamos nos outros dizem muito de quem somos, as nossas memória dirão quem fomos. «Há mortos mais vivos que os vivos que nos morreram pela indiferença…» A indiferença é a maior dor. Mais do que uma acusação a netos distraídos ou filhos ausentes, esta obra é uma chamada de atenção. O que não fizermos hoje – o telefonema ou a visita eternamente adiada – amanhã regressam como remorsos, algo que não tem cura. Hoje, as pessoas vivem mais mas é preciso saber o que acarreta este prolongamento da vida…. Se é uma benção ou um castigo. Diz o personagem: «Não tenho medo da morte, acho que já não. Perdi a vontade de sobreviver. Este corpo é-me insuportável, quero desencarnar, quero libertar-me deste peso, como quem despe todos os pesos do mundo, quero libertar-me». Mas importa dizer também que o livro é recheado de humor, de poesia, de amor… É um personagem que nos oferece um cocktail de emoções.
P – Quais são os próximos projetos na literatura, o que tem em mente?
R – Estou cada vez mais empenhado na escrita. Este ano lancei uma nova edição de “Fernão de Magalhães e a Ave-do-Paraíso”. Por isso estou empenhado na promoção destas duas obras. Entretanto, terminei um romance histórico que deverá sair em 2028 e um outro já está a ganhar forma. Estes dois romances vão sair da linha habitual. Estou a dar mais atenção à escrita para crianças e tenho alguns projectos em mãos. Quero que sejam obras para pensar, pois os livros vazios que estão a atulhar as livrarias pouco acrescentam a quem lê e levam a que as pessoas abandonem a leitura. Estudos recentes dizem que apenas 5% dos estudantes conseguiram compreender textos longos, lidar com conceitos abstratos e distinguir um facto de uma opinião. É vergonhoso. Temos de inverter esta tendência, voltar ao tempo em que as pessoas liam, em que pensavam. A começar pelos mais novos.
______________________________________________________________________________________________________________
João Morgado
Romancista, autor de “Cemitério de Pardais”
Idade: Nasci em 1965
Naturalidade: Covilhã
Profissão: Escritor e investigador
Currículo (resumido): Escritor plural em temas e estilos, percorre o romance histórico, o contemporâneo, a poesia, o teatro e o conto; Nove prémios literários, obras traduzidas em inglês, russo, sérvio, indonésio e chinês; Em 2025, “Dust in the Gale” foi seleccionado para o Dublin Literary Award 2026. Doutorando em Comunicação na UBI. Foi chefe de gabinete de três presidentes de Câmara
Livro preferido: um qualquer de Lobo Antunes
Filme preferido: “The Bucket List”, de Rob Reiner
Hobbies: Escrita, viagens, conversas que duram até tarde e a ideia de que este ano acabo o doutoramento



