Arquivo

O mal(ben)dito telemóvel

Sinais do Tempo

“Liguei-te mas não atendeste”, “Enviei-te um MMS”, “Recebi um SMS” são expressões a que todos nos habituámos. Percebe-se que o tema é o mal(ben)dito telemóvel.

Na realidade ele veio revolucionar as nossas vidas para o melhor e para o pior. Permite que mesmo no cume da serra ou nas profundidades de um túnel estejamos em contacto. Mas também quando almoçamos descansados o maldito telemóvel (o nosso ou o do vizinho) toca e incomoda. Na verdade, reduziu a privacidade em todas as vertentes e, queiramos ou não, somos obrigados a ouvir conversas a que somos estranhos.

Tudo começou há cerca de uma década, quando víamos algumas (poucas) pessoas transportar um objecto enorme, quase do tamanho de uma bateria, de que lhes permitia estar em contacto quase permanente. Depois apareceram uns aparelhos mais portáteis, que não cabiam no bolso, mas logo surgiram as miniaturas, e a indexação dos sons polifónicos, dos LCD, das máquinas fotográficas e vídeos.

Já não chega falar de qualquer lugar, é igualmente importante ver – passando à história aquela máxima “então onde é que estás?”. Basta ligar, accionar a câmara e qualquer amante distraído é apanhado. Os nossos hábitos mudaram e hoje é impensável sair de casa sem levar a caixinha colorida – não vá alguém querer-nos dizer algo importante. Por exemplo: “mandei-te um kolmi”. Dorme-se com ele bem pertinho da cabeceira, namora-se durante longos minutos, combinam-se negócios ou encontros, enviam-se toques só para dizer que se está vivo, joga-se, comandam-se os electrodomésticos lá de casa, paga-se o estacionamento e sei lá que mais! Quanto mais perto de nós melhor (ou pior).

O pior mesmo é que o telemóvel está ligado à tecnologia sem fios, marca do século XX, a que se associam outros meios igualmente indispensáveis: os telecomandos que nos permitem o magnifico “zapping”, os teclados e ratos “wireless” ou o comando à distância do automóvel. É exactamente aqui que encontramos a versatilidade de todos estes aparelhos, mas é também aqui que podemos encontrar os riscos. Na realidade todos eles recebem e irradiam campos radioeléctricos, ou seja, emitem radiações. Se nos primeiros telemóveis ficou provado que a sua ampla utilização poderia acarretar riscos para a saúde, nos mais recentes ainda não existem estudos suficientes. A preocupação cresceu quando a Direcção Geral de Saúde alertou para os eventuais malefícios do uso do telemóvel aconselhando a utilização de auscultadores. Por outro lado, investigadores ingleses, menos distraídos, vieram afirmar que o querido aparelho não deve ser utilizado por crianças. Mais: que não é bom “namorar” mais de dois minutos. Os suecos já divulgaram resultados que apontam para o aumento do risco de tumores do ouvido ao fim de dez anos de utilização, e os holandeses apontam para disfunções cerebrais. Um outro estudo coloca a hipótese de danos na nossa matriz (o ADN). São tudo hipóteses ou poderão ser apenas especulações. Aguarda-se um relatório final da Organização Mundial de Saúde.

Independentemente dos eventuais malefícios para a saúde, ainda em avaliação, devemos rever as normas de educação e evitar o uso de telemóvel em locais públicos e onde todos temos o direito a não ouvir toques estridentes ou conversas que devem ser privadas. Isto para não falar do óbvio (perto de “pace-maker”, estações de serviço, aparelhos de electro-medicina, só como exemplos). Vá lá, torne-se menos importante algumas horas por dia e ligue o telemóvel só quando necessita.

Por: João Santiago Correia

*Médico, inicia nesta edição crónica mensal

Sobre o autor

Deixe comentário