P – Que significado tem para si, enquanto estudante da UBI, ter sido eleito presidente da ANEM?
R – É uma grande honra. Em primeiro lugar, pela responsabilidade que acarreta representar quase 10 mil estudantes com o nível de qualidade a que esta representação tem acontecido. Por outro lado, fica o sinal de que a Faculdade de Ciências da Saúde da UBI dá formação de qualidade e do incentivo que dá aos seus estudantes para que vejam e atuem para além da medicina, completando assim a sua formação.
P –Acha que a sua eleição, e de outros colegas da UBI, é mais um contributo para ajudar a combater um certo estigma que ainda vai existindo em relação aos estudantes de medicina fora dos grandes centros?
R – Espero que sim. Penso que esse estigma está cada vez mais posto de parte dado que já temos provas dadas sobre a qualidade e diferenciação que esta casa proporciona. O estigma que ainda existe, se me permitem, provém dos estudantes que entram na UBI contrariados e que olham a Covilhã e o interior como um fim do mundo, muito influenciados por fatores externos. Com o tempo, as opiniões da maioria mudam e fica o gosto por esta cidade e pela Faculdade que tão bem recebem os seus estudantes. A prova disso é que cada vez mais estudantes colocam a UBI em primeira e segunda opções.
P – Quais são as grandes prioridades para este mandato?
R – Na representação em política educativa e educação médica faremos um acompanhamento das alterações ao Internato Médico. Discutiremos mais as temáticas da educação médica com o objetivo de melhorar as condições de formação dos nossos colegas. No que diz respeito à formação, continuará a procurar-se proporcionar aos colegas oportunidades de formação em diferentes áreas e a sua atuação nos domínios da responsabilidade social. Por outro lado, continuaremos a marcar uma forte presença a nível internacional por forma a mostrar projetos portugueses de qualidade e trazer novas contribuições para a atividade dos estudantes de Medicina. Faremos tudo isto envolvendo cada vez mais os estudantes na nossa atividade.
P – Quais as principais preocupações dos estudantes de medicina em Portugal?
R – Atualmente, e com as notícias que têm sido tornadas públicas, as preocupações residem na sua maioria nas alterações ao Regime do Internato Médico e com a sobrelotação das unidades de ensino clínico e académico associadas às Faculdades de Medicina portuguesas.
P – O Ministério da Saúde tem um projeto de decreto-lei que revê o regime do internato médico e em que os licenciados que obtenham classificação inferior a 50 por cento na futura prova nacional de seleção não podem escolher especialidade. Como é que a ANEM vê esta medida?
R – Vimos com preocupação e como oportunidade, ao mesmo tempo. A posição dos alunos, auscultada em cada Faculdade, é contra a introdução deste critério para seleção dos estudantes enquanto estivermos perante um exame que não seja capaz de selecionar apropriadamente os candidatos. O modelo de exame atual apenas serve para seriar, tendo merecido desde sempre críticas das várias partes quanto à dificuldade em distinguir estudantes preparados e com competências clínicas efetivas. A discussão das alterações propostas neste decreto-lei é uma oportunidade para mudarmos muito do que está menos bem com o objetivo de formar melhores médicos.
P – O que é que, na sua opinião, deveria ser feito para cativar e fixar mais médicos no interior do país?
R – As soluções para este problema já foram pensadas por várias entidades certamente. Os hospitais fazem um esforço grande neste sentido. Poderá faltar pôr em prática maiores sinergias entre hospitais de forma a dotá-los de capacidade para formar médicos em outras especialidades, que possam cativar mais candidatos a formarem-se e estabelecerem a sua vida no Interior. Falo do exemplo da criação do Polo de Saúde da Beira Interior.
P – Acha que as vagas existentes no país são suficientes?
R – Esta discussão vai para além das vagas. Temos uma clara sobrelotação dos hospitais que recebem estudantes do pré-graduado com implicações graves na qualidade da sua formação. Há diversos estudos que mostram uma desproporção no número de vagas para acesso aos cursos de Medicina, que é superior às capacidades de os dotar com especialidade, necessária para o exercício autónomo da medicina. Estas capacidades formativas têm estado cada vez mais em risco, como tem vindo a ser notícia.


