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A tradição ainda é o que era em Águas Belas

A “Volta da Santa” realiza-se todos os anos pelo Dia de Reis nesta zona do concelho do Sabugal onde as pessoas são brindadas com cigarros

Desde há muito tempo que, «chova ou neve», todos os anos por altura do Dia de Reis a ”Volta da Santa” sai à rua no concelho do Sabugal, numa tradição antiga que abrange várias localidades das freguesias de Águas Belas, Sortelha e Pousafoles do Bispo. Reza a lenda que esta prática, em que os mordomos levam consigo uma imagem de Nossa Senhora do Rosário e deixam cigarros em casa das pessoas, começou após vários desaparecimentos misteriosos de habitantes daquela zona.

António Leal da Costa, de 57 anos, António Luís, de 56, e Joaquim Pires, de 47, são os “mordomos de serviço” deste ano, os dois últimos por motivos de doença do sogro. Contam que não sabem ao certo quando a tradição teve início, mas sabem que começou «porque todos os anos havia uma pessoa que desaparecia nestas terras e nunca mais se sabia do seu paradeiro, nem viva nem morta». Em plena noite, ainda se ouvia o desaparecido gritar «ai que me levam, que me roubam» mas nada mais se sabia. Foi então que «assustados com estes desaparecimentos», os habitantes prometeram dar todos os anos, no Dia de Reis, uma volta com a imagem de Nossa Senhora do Rosário por Águas Belas e as terras vizinhas. De resto, contam que houve um ano «em que estava a nevar muito e por isso a volta não se fez e tornou a desaparecer uma pessoa». Desde aí que a tradição se repete, «faça chuva, neve ou vento», não propriamente no Dia de Reis, se for um dia de semana, mas no fim-de-semana mais próximo.

No sábado, os mordomos saíram cedo de Sobreira e levaram a imagem da santa à Quinta do Clérigo, Quarta-feira, Dirão da Rua e ao Espinhal, onde o INTERIOR os encontrou. Já no domingo a volta terminou em Águas Belas. A prática de deixar cigarros em casa das pessoas «já é tão antiga que ninguém sabe muito bem como começou. Sempre nos lembramos há muitos anos de os dar», diz Joaquim Pires. Este ano, ao todo, contavam distribuir perto de 1.400 cigarros pelas casas visitadas, numa média de cinco ou seis por lar, e se antigamente eram oferecidos os chamados “mata-ratos”, atualmente, «e por causa da crise», são dos «mais baratos que estão à venda». Neste dia, é habitual jovens e adultos fumarem todos um “cigarrinho” porque também é tradição. Jorge Oliveira, de 12 anos, diz que fuma «desde os 10» no Dia de Reis e que os seus pais «não se importam porque é pela Santa, não faz mal». O jovem até «acha piada» à tradição e defende a sua manutenção, pois é «importante manter as tradições das nossas terras».

A mesma opinião tem a sua cunhada. Alcina Oliveira defende «que se continue» com a “Volta da Santa”, recordando que «desde pequena» que se lembra destas visitas. Na casa ao lado, Josefa Afonso, um pouco menos jovem, concorda: «Acho bem que se continue com esta promessa dos antigos. A minha mãe sempre falou nisto. Pode ter 200 ou 300 anos. Toda a vida me lembro da “Volta da Santa”», declara.

«Boas festas corporais e espirituais para toda a família»

Joaquim Pires é emigrante em Espanha e revela que veio «de propósito para cumprir a tradição», sublinhando ainda que esta «é uma maneira de rever pessoas que já não vejo há muito tempo porque sou emigrante há 20 anos». Quando os mordomos entram nas casas dizem à chegada: «Nossa Senhora entra nesta casa», ao que os proprietários respondem «Nossa Senhora é que queremos». O mordomo diz então «boas festas corporais e espirituais para toda a família», ao que os anfitriões se ajoelham e beijam a imagem de Nossa Senhora, deixando «a esmola que cada um queira dar». É também hábito em cada casa haver uma mesa, com comes e bebes para mordomos e visitados conviverem durante alguns minutos, e onde são deixados os cigarros.

Ricardo Cordeiro Imagem de Nossa Senhora do Rosário é beijada pelos presentes em cada casa

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