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A revolta

Por motivos de ordem familiar, a manifestação de sábado apanhou-me em Lisboa. A força do turbilhão de milhares de pessoas que interpretaram um clamor contra a resignação correu para o Terreiro do Paço com uma força inaudita e superior a qualquer previsão. Não matavam “o mestre”, mas a contestação contra todos os cortes saiu à rua, como se 1385 fosse agora e houvesse que liquidar ali mesmo um qualquer conde Andeiro opressor de vontades e desígnios. De cabeça perdida pela frustração, pelo desalento, pela falta de expetativas gritou-se em nome do futuro, como se o futuro não precisasse de mais resignação ou austeridade.

A Troika que se lixe!

Porque enquanto se descia os Restauradores o que se sentia era uma nova esperança, um novo querer, uma nova forma de governar. Mas logo ali, olhando à volta, o que se viam era infiltrados: dirigentes tradicionais, políticos de jaqueta, gente que leva anos a comer à mesa do Orçamento, manifestantes de pacotilha que usurpam o suor dos trabalhadores, gestores públicos de jeans disfarçados de proletários espoliados, dirigentes sindicais corporativistas sempre insatisfeitos… Enfim, havia de tudo, porque todos tinham direito à sua “manif”, porque todos temos direito ao protesto e à reivindicação de dias melhores, porque todos temos a obrigação de sair à rua e brandir contra o espezinhar dos mais fracos e espoliados. Mas havia tantos que não deviam lá estar… Havia tantos que saíram à rua, mas deviam ter ficado em casa (aqueles que auferem salários de milhares de euros e consomem outros tantos milhares em ajudas de custo e despesas de representação. Ou aqueles que têm reformas douradas). Porque não era, não devia ser, uma manifestação para quem recebeu durante anos milhares de euros e de regalias, que viveu durante anos na sombra dos interesses de pequenos poderes, que conviveu com a vis negociatas de amigos, que nunca protestou pelas fundações que levaram milhões para pouca coisa (e não foi só a de Mário Soares – que também disse que queria manifestar-se depois de ter recebido 1,3 milhões de euros em três anos…), ou pelas IPSS que, em nome dos mais fracos, sustenta dirigentes, familiares e amigos, ou das Empresas Municipais que promoveram a despesa nos territórios, ou de tantas outras armações para sacar dinheiro do Estado e distribui-lo por alguns… Tudo. Tanto.

O PS, já de bandeira desfraldada, como se nada tivesse a ver com tudo o que ali se passava, porque a memória dos homens é pequena e os políticos não têm vergonha. Nem estes, nem os outros.

O PS de Sócrates governou como se não houvesse amanhã. E o Governo do PSD e CDS governa sem sequer querer saber do hoje. Por tudo isso, e porque me iam chegando as notícias de que, na Guarda, por entre mil manifestantes, lá estavam também os que localmente contribuíram para cavar o buraco; lá estavam em protesto, também, contra não sei o quê, os que, na Guarda, estão e estiveram do lado dos interesses; lá estavam, também, os que ajudaram e ajudam a afundar a cidade, a região e o país. Perante isto, e sorrindo, só vale a pena recuperar a mortal exclamação de Millôr Fernandes: «Hay gobierno, soy contra; no hay gobierno, también soy». Afinal de contas, saímos à rua porque já não podíamos calar, mas há tantos que saíram à rua a pensar no próximo passo, na próxima oportunidade para continuarem a sacar. Há muitos para quem o “rei vai nu”, mas que se lixe, e vão-nos lixando enquanto montam o circo e nós pagamos a fatura. Aos que também se manifestaram fica o recado: fiquem de olho nesses oportunistas; apontem o dedo a todos estes que parecem nossos iguais, mas que meteram a mão no saco com tanta veemência que ajudaram e ajudam a rompê-lo. Depois da contestação, é hora de olhar, olhos nos olhos, os desavergonhados que por trás das palavras e da jactância levam o ouro para casa. Não choramos todos lágrimas iguais.

Comentários dos nossos leitores
TAFtafcoa@sapo.pt
Comentário:
Parabens. Adorei o artigo. É isso mesmo.Seja qual for o regime, os oportunistas lá estarão na primeira fila…disfarçados de coitadinhos…mas bem gordinhos…
 
tózesilvatozesilva2012@gmail.com
Comentário:
Adorei este artigo. Identifico-me completamente com ele. Parabéns. No dia a dia cada vez me sinto mais revoltado… que descaramento o daqueles senhores que nos levaram a este estado de coisas porque tudo fizeram para que assim fosse e que agora parecem ser os salvadores… Que descaramento o daqueles senhores que se deram conta dos desvios, que lucraram com eles e não os denunciaram nem evitaram; que descaramento o daqueles que “vivem como monarcas”, rodeados dos seus lacaios, dos seus escravos e guardas pretorianos e que parece que têm solução para tudo ( pedir mais dinheiro para poderem desviar mais dinheiros….) Nesse dia fiquei em casa (anónimo)… não quero que a minha presença seja contabilizada e usada. Começo a pensar que a ETA, na essência, tinha algumas razões para existir… podia ser que o mêdo..
 

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