Passos Coelho e Paulo Portas chamaram-se mutuamente de mentirosos sobre a questão do aumento da Taxa Social Única (TSU). Passos sugeriu o envolvimento e a concordância de Portas na medida e este negou. Sabe-se agora que não foi Portas o único a discordar e que outros ministros estiveram contra – tal como estão a generalidade dos “barões” do PSD, toda a esquerda (ressalvada a possível excepção de Vital Moreira) e milhões de portugueses.
Isto sem esquecer um recente estudo, da autoria de investigadores das universidades de Braga e Coimbra, que vem desmentir os efeitos do aumento da taxa pretendido pelo governo (ou pelo menos pela parte do governo que a defende). Segundo estes investigadores, a diminuição da contribuição dos empregadores para 18% é irrelevante na criação de emprego. Sobrará o outro objectivo pretendido, e confessado em entrevista pelo Passos Coelho, consistente na diminuição forçada do poder de compra dos trabalhadores com o objectivo de assim reduzir o défice do saldo comercial, mas a verdade é que nunca ninguém tentou isto antes. Tentou-se, e vai tentar a França, implementar a desvalorização fiscal de que se falava, com a redução da contribuição das empresas a ser compensada com o aumento do IVA.
O que muitos dizem também é que a versão portuguesa vai ter todos os inconvenientes e nenhuma das vantagens dessa desvalorização fiscal, diminuindo o poder de compra dos trabalhadores sem verdadeiramente ajudar as empresas. Depois, começa por aí a dizer-se que nada garante virem as empresas utilizar a poupança na TSU na criação de postos de trabalho: poderão por exemplo utilizá-la, cinicamente, para financiar as indemnizações de despedimentos colectivos; ou para distribuir o lucro gerado com essa poupança pelos accionistas. Diz o PSD que não, que na implementação da medida se poderá obrigar as empresas a reinvestir a poupança, podendo até ser proibidas de distribuir dividendos.
Estará tudo grosso? Quer o PSD meter-se na gestão das empresas? E como pretende travar a fuga de capitais que uma medida desse género iria imediatamente provocar? É evidente cada vez mais que já ninguém manda, que ninguém sabe o que faz, que ninguém se dá já ao respeito e que somos governados por um bando de incompetentes e mentirosos que agora se dedica a fazer experiências com as nossas vidas.
Por: António Ferreira


