Olhe para as suas mãos. São praticamente iguais, mas não são sobreponíveis. Por mais que tente, nunca conseguirá encaixar perfeitamente a mão esquerda sobre a direita. Curiosamente, acontece algo semelhante com muitas moléculas que existem na natureza. E esta particularidade, aparentemente simples, está na origem do Prémio Nobel da Química 2026.
O prémio foi atribuído ao francês Henri Kagan e ao japonês Kenso Soai, dois investigadores, que ajudaram a compreender como as reações químicas podem favorecer uma das duas formas de uma molécula que são imagens uma da outra no espelho.
Esta diferença pode parecer insignificante, mas para o organismo humano é fundamental. Duas moléculas com a mesma composição química podem comportar-se de maneira muito diferente. Uma pode produzir o efeito terapêutico desejado, enquanto a outra pode ser menos eficaz ou provocar efeitos indesejáveis.
Isto acontece porque o nosso organismo também é constituído por estruturas que distinguem estas duas formas. As proteínas, as enzimas e muitos dos recetores celulares reconhecem as moléculas de acordo com a sua organização tridimensional.
É um pouco como tentar calçar uma luva esquerda na mão direita: a semelhança existe, mas o encaixe não é o mesmo.
Durante muito tempo, um dos grandes desafios químicos foi encontrar formas de produzir preferencialmente apenas uma destas versões. Muitas reações originam misturas das duas, obrigando depois a processos de separação que podem ser difíceis e dispendiosos.
Foi neste domínio que Henri Kagan deu contributo decisivo. Os seus trabalhos mostraram que pequenas diferenças na proporção das duas formas de um catalisador podiam provocar diferenças muito maiores nos produtos obtidos. Um pequeno desequilíbrio inicial podia, afinal, ter um efeito surpreendente no resultado de uma reação.
Kenso Soai foi ainda mais longe. Em 1995, demonstrou uma reação em que o próprio produto ajuda a formar mais moléculas iguais a si. Este fenómeno, conhecido como autocatálise, permite amplificar uma pequena preferência inicial até que uma das formas se torne claramente dominante.
Mas a importância destas categorias ultrapassa a indústria farmacêutica. Há uma questão que intriga os cientistas há muito tempo: por que razão a vida utiliza preferencialmente uma das duas formas de determinadas moléculas?
Os aminoácidos que constituem as proteínas dos seres vivos, por exemplo, pertencem quase exclusivamente a uma das duas famílias possíveis. Os trabalhos agora distinguidos ajudam a perceber como uma pequena diferença inicial pode ser ampliada por processos químicos naturais. Não explicam, por si só, a origem da vida, mas oferecem pistas importantes para investigar esse problema.
O Nobel da Química de 2026 distingue, assim, duas descobertas que transformaram a nossa capacidade de controlar as reações químicas. E deixa-nos uma ideia interessante: na natureza, não basta saber de que são feitas as moléculas. A forma como os seus átomos estão organizados no espaço pode fazer toda a diferença.


