Anotações de Hélder Sequeira: Francisco de Pina: um guardense no diálogo cultural entre Vietname e Portugal

Escrito por Hélder Sequeira

Na Guarda decorreu entre 6 e 8 de outubro um importante evento internacional que, promovido pela Associação para a Promoção da Cultura Vietnamita (APCV) com o envolvimento e empenho do município guardense, abriu novos caminhos de cooperação e investigação sob a figura tutelar de Francisco de Pina, nascido nesta cidade entre março e setembro de 1586.

Falamos da «personalidade central de um notável encontro de línguas e de culturas no distante Oriente, no longínquo século XVII», a quem António Salvado Morgado – de quem são as palavras atrás transcritas – tem vindo a dedicar (há vários anos) particular atenção; estudando a sua vida e obra, contribuindo ativamente para um melhor conhecimento desta personalidade guardense.

Como sublinhou num dos artigos que escreveu sobre Francisco de Pina, este «jesuíta, português, missionário e linguista» contribuiu para que a Guarda esteja perenemente ligada à história do atual Vietname, que adotou o alfabeto latino. Um facto que fica a dever-se, especialmente, ao labor de Francisco de Pina que aprendeu no século XVII a língua local (o anamita) estudando-a pormenorizadamente e, consequentemente, avançando com a sua romanização. António Morgado destacou que graças ao missionário português e «a outros que continuaram o caminho que ele traçou, o presente do passado não é só memória. Com ele o presente do passado é realidade viva nas letras e signos linguísticos com que se exprime um povo de milhões de pessoas, o Quôc ngû, a língua nacional do Vietname. E isso é presente».

Eduardo Marçal Grilo e Rui Campos Guimarães escreviam no passado mês de maio, no jornal “Público” (num artigo intitulado “Francisco de Pina, um génio português quase desconhecido”), que a obra deste guardense «foi notável, com a criação da escrita de uma língua que hoje perdura no Vietname, sendo falada por mais de 100 milhões de pessoas e que teve uma influência extraordinariamente positiva no desenvolvimento das relações económicas dos portugueses no tempo da expansão do seu império na Ásia».

Apesar de não haver um grande conhecimento sobre a sua família, tudo aponta para uma ligação deste missionário aos Pinas, uma das famílias mais importantes da Guarda. No ano de 1605 Francisco de Pina ingressou, em Coimbra, no noviciado da Companhia de Jesus, onde recebeu uma eminente formação espiritual e intelectual. Após a sua formação na cidade do Mondego foi para Lisboa e daí embarcou, em 1608, na carreira da Índia, deixando Portugal para sempre. Embora o destino fosse o Japão, este ilustre guardense foi para Goa e daí para Macau.

Na Cochinchina, atual Vietname, Francisco de Pina empenhou-se no estudo da língua local. Desenvolveu um sistema de escrita baseado no alfabeto latino; sistema que serviu de base ao atual Quoc Ngu, a escrita oficial do Vietname. Francisco de Pina morreu tragicamente num naufrágio, em 15 de dezembro 1625, com 40 anos.

Sobre o autor

Hélder Sequeira

Deixe comentário