Opinião de Diana Santos: A obra de Lourenço em vinho?

Escrito por Diana Santos

Na abertura da quinta edição do Guarda Wine Fest, um evento dedicado ao vinho, eis que se anuncia uma homenagem ao legado do pensador Eduardo Lourenço. Um livro, uma revista, um documentário, uma nova escultura erigida em plena Alameda de Santo André, um inovador projeto científico ibérico? Não, um vinho.
Se Lourenço estivesse entre nós, talvez esclarecesse que toda a sua obra pretende elevar o espírito em vez do copo e celebrar a lucidez intacta. Não que o vinho não se aprecie, mas porque os domínios são distintos e distantes.
Para se conhecer um autor, deve começar-se por se conhecer a sua obra. Tentarei ajudar e deixarei a reflexão final para o leitor – será um vinho uma homenagem adequada a Eduardo Lourenço?
Vejamos brevemente a crítica do filósofo sobre a «nova fase da mundialização», escrita n’ “O Esplendor do Caos”: «O cultural como um bem de rendimento praticamente infinito, o cultural como objeto de apropriação, em termos de mercadoria, através da nova função que […] lhe conferiram». (…) «O cultural, paradoxo supremo, é mais do que o ópio do povo e quem é o seu sujeito, a título económico, a título de proprietário do imaginário com um poder de sedução sem igual, é virtualmente o senhor do mundo». «O nosso mundo é, culturalmente, de uma profunda diversidade e é alimentado pela produção da diferença, mas torna-as todas, sem excepção, um subproduto da máquina infernal, ou divina, de converter em dinheiro as expressões mais “espirituais” da inteligência e da imaginação humanas. Escândalo, alienação, inexorável da existência neste fim de milénio? A consequência mais visível desta alienação, que vivemos como apoteose – e sem ela a festa mediático-cultural não existiria –, não é a do uso de ícones culturais para vender o não cultural (…), é a total desideologização do signo cultural até à sua provocante perversão: por exemplo, Che Guevara para ilustrar o sucesso mítico do jeans ou a muralha da China para servir de pano de fundo às performances da Renault».
Não deixa de ser irónico que um autor que alertou para a transformação da cultura em mercadoria seja ele próprio convertido num elemento de diferenciação comercial.
Homenagear Eduardo Lourenço exigiria, antes de mais, fazer aquilo que ele fez durante toda a vida: pensar. Ler os seus livros, promover debates sobre a sua obra, apoiar a investigação, aproximar os jovens do seu pensamento, criar espaços de reflexão que prolongassem o seu legado.
Não se trata, portanto, de uma discussão sobre vinho, mas antes da forma como entendemos a cultura e aqueles que a construíram. Quando uma sociedade escolhe homenagear um dos seus maiores ensaístas através de um produto comercial, diz muito sobre si própria.
Fica, por isso, a pergunta inicial: será um vinho uma homenagem adequada a Eduardo Lourenço? Cada leitor responderá como entender, mas, conhecendo o que o autor escreveu sobre a mercantilização da cultura e a perversão dos signos culturais, talvez a resposta mais interessante já tenha sido dada pelo próprio. Por isso, reitero a ideia de que antes de se homenagear alguém deve conhecer-se, em primeiro lugar, a sua obra.

* Presidente da concelhia da Guarda do PS

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Diana Santos

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