Opinião de António Godinho Gil: Duir*

1. E quando a devastação toma conta de ti? E quando a beleza te atravessa e te queima? E quando as tuas lágrimas te parecem imaculadas? E quando o teu castelo desaparece atrás de uma cortina que nunca lá esteve? Aproveita essa nudez da alma que a mágoa escancarou. Não busques forças para erguer muros ou sustentar máscaras. Encontra um novo ponto de equilíbrio nessa agilidade improvável. Mas não faças cerimónia enquanto dura esse colapso do teu ser. Esse momento em que a estrutura da alma cede e a arquitectura da devastação dita as regras. Depois, não te preocupes se deixas espaços em branco, pois a música vai preenche-los. E as pequenas coisas a que nunca deste importância vão alimentar a tua história, como uma inevitabilidade.
2.Também pode acontecer que as tuas manhãs nasçam mortas, desprovidas de qualquer fagulha. Enquanto o tempo se arrasta como um lodo espesso que te sufoca e te impede de avançar. As palavras não só emagrecem, como se desintegram antes de serem ditas. Também pode acontecer que os teus gestos fiquem suspensos no vácuo e o silêncio se torne esmagador, devorando tudo em redor. Pode mesmo acontecer que atravesses um inverno absoluto, branco, com uma primavera que nunca chega. Poderás questionar-te porque é que isso acontece. As respostas serão infindáveis. Sem querer ser adivinho, uma delas poderá ser a tua espantosa coragem em ter seguido uma linha até ao fim. Ate onde a tua alma não podia mais, como diria o Al Berto. Não para veres onde e como acaba, mas os territórios que atravessa.
3. A beleza, nestas ruínas onde ecoam os meus passos, reside na honestidade do entulho. Num tear que desenrola todas as fachadas e artifícios que antes me eram ocultos. A esperança não se encontra na tentativa de reconstruir exatamente o que ruiu, mas na luz que consegue atravessar as fendas, que antes eram muros intransponíveis. No vazio deixado pelo desmoronamento, surgem fragmentos, sem o peso sufocante da antiga estrutura. Encontrar uma voz no meio dos destroços, é reconhecer que a ruína, embora dolorosa, anuncia um terreno limpo, onde uma nova arquitetura do ser pode, eventualmente, começar a ser traçada.
4. Na página, dos fãs dos Pink Floyd, vi uma foto do David Gilmour com um grupo de amigos, à mesa. Chamou-me à atenção a frugalidade do repasto, a elegância dos gestos. Uma alegria genuína dos convivas por estarem reunidos. As mãos em cima da mesa e não os cotovelos. Tudo sinais de uma amizade tranquila e cúmplice. Ocorreu-me o registo tuga das fotos de amigalhaços/ convivas à mesa. Todos com o copo na mão, brindando não entre si, mas em honra do fotógrafo. É detetável uma agitação postiça. Uma animação em esforço. Como uma espécie de rigor mortis involuntário para a posteridade. Percebe-se que a atenção foi momentaneamente desviada da gula para a pose. Que talvez tenha impedido que um tédio desconfortável se instalasse. Cotovelos pousados na mesa, é claro.
5. Guardo o passado numa loja de porcelanas e cristais, onde o presente é uma maquilhagem que sustenta o insuportável, e o silêncio é o medo de acordar o elefante que tudo estilhaça. Nessa viagem, abrem-se torres e balcões dando para palcos logo transformados em balcões, num processo infindável. A espaços, aparecem guerreiros clandestinos, improvisando segredos alquímicos para sobreviver, enquanto ensaio um sapateado solitário pelos corredores da memória.

* No calendário vegetal celta, designa o carvalho
** O autor escreve de acordo com a antiga ortografia

Sobre o autor

António Godinho Gil

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