Opinião de Albino Bárbara: De Damasco a Santiago

Escrito por Albino Bárbara

Caminhar até Damasco deve ser uma experiência única e individual. É um trajeto para quem o percorre, dá conta que ao deixar a cidade da fúria e da esperança, pode seguir em direção ao rio Jordão, Galileia, chegando assim facilmente a Damasco. No entanto, pode optar por iniciar o percurso em Jerusalém, continuar pela Palestina, Cadara, Amã até chegar à Síria e finalmente dirigir-se à Rua Direita do coração do mundo árabe.
Quem decide fazer este caminho sabe que tem de fazer escolhas, tal qual fez Saulo, que, ziguezagueante, escolheu a primeira rota. E ali mesmo o destino marcou a hora. Aconteceu mesmo.
Deixemos então a cidade velha de Jerusalém, fazendo as pausas calculadas, sejam elas em Hippos, nos montes Golã ou até na cidade fantasma de Quneitra para alcançarmos o propósito da conversão nessa reviravolta súbita de interesses e, se não há ponto sem nó, a nova escolha faz atirar o passado para trás das costas, limpando-o com uma esponja, onde se nega Cristo, chegando-se ao cúmulo (na maior parte das vezes, para não dizer quase sempre) de fazer aquela triste figura só comparável a Judas Iscariotes.
E, na encruzilhada, a prioridade passa pela escolha da barriguinha, onde se manda às favas a coerência, a ética, a moral e os bons princípios, onde a política dançante obriga a calçar sapatilhas de ponta para esticarem o cachaço, tipo pescoço de girafa, comendo tudo sem nada lhes fazer mal, tendo sempre por finalidade atingir o objectivo desejado que, segundo o José, “eu sou eu e a minha circunstancia e não a salvo a ela, ela não me salva a mim” e onde alguns destes, mesmo com comportamentos muito próximos dos tais cães do sistema, atingem a governação e até o generalato.
Os bailarinos (políticos) adaptam-se ao ritmo dos tempos, aos passeios no boulevard da vantagem, ao novo som de outra e nova música (nem que não gostem, aceitam-na de bom grado acenando afirmativamente e aplaudindo) numa perfeita modelagem fluida em que o oportunismo se confunde com o oportuno, o poder assume a nova paixão, a mediocridade assenta em tudo aquilo que Stefan Zweig descreveu na bíblia para políticos ordinários intitulado José Fouché, sem esquecer que a «existência precede a essência».
A outra opção é o caminho de Santiago. Um nada tem a ver com o outro e, se o primeiro é moldado pela conveniência e vantagem que pode ir de um extremo ao outro, o segundo tem sempre intenções culturais, ecológicas e uma forte convicção na procura da verdadeira paz interior numa comparação muito próximo entre o labrego Sancho Pança e o cavaleiro Quixote.
Os políticos costumam afirmar que o caminho faz-se caminhando. Sim é verdade e para chegar a Santiago há muitos locais de paragem, alcançar inúmeras metas volantes e assim sendo a pergunta é inevitável: Damasco ou Santiago?
Depois desta reflexão, fixemos o percurso, os timings da partida, os cálculos da chegada, os imprevistos do percurso, os “compagnons de route” escolhidos e, já agora, o conselho: a capa e a merenda nunca pesaram ao pastor.

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Albino Bárbara

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