Escrevo antes de conhecer o resultado do jogo de Portugal no Mundial da FIFA. Mas sei que o Irão empatou com a Nova Zelândia em Los Angeles e empatou Trump no zoom. Em ambos os casos, o Irão esteve a perder, mas conseguiu equilibrar o resultado. A selecção de futebol voltou para o México depois do jogo, a selecção de aiatolas voltou ao poder depois da guerra. Uma novidade é que agora há interrupções para “hidratação”. E no futebol também.
Esta semana houve um jogo muito desconfortável para Portugal. O Espanha-Cabo Verde punha em confronto a potência castelhana que tentou colonizar Portugal, contra umas ilhas atlânticas que Portugal colonizou. Apoiar a Espanha pode ser eurocentrismo, e apoiar Cabo Verde pode ser neocolonialismo. Felizmente, empataram, e pudemos dormir descansadinhos com Cervantes no Kindle e Cesária Évora no Spotify.
No resto do que já foi jogado, a selecção de Curaçau (Kòrsou na língua local, o papiamentu, que é um crioulo baseado em português e espanhol) ainda marcou um golo à Alemanha antes de serem atropelados pelo buldózer germânico, que é povo que não está para sentimentalismos românticos na hora de jogar à bola.
Muita gente ficou surpreendida com o empate de Marrocos com o Brasil. Não eu. Uma equipa africana fazer frente ao gigante sul-americano? A equipa representa um país africano. Mas a equipa em si não é realmente africana. A maioria dos seus jogadores nasceu e vive na Europa, são cidadãos de pleno direito de vários países da União Europeia. Se o argumento vale para a política, também tem de valer para o futebol. E Portugal e Espanha, na geografia e no futebol, bem conhecem a dificuldade em vergar a força do Norte de África. É que, se nos séculos XIV e XV, Portugal e Espanha se fizeram com a expulsão do Califado, no Mundial do Qatar, foi Marrocos que eliminou o domínio peninsular.
Falta saber como Portugal vai lidar com a selecção da República Democrática do Congo, um país que pode ser uma República, fica na região do Congo, mas democrático não é com certeza. É um país que tem um nome dois-terços verdadeiros. E a minha maior curiosidade fica reservada para o jogo com o Usbequistão. Estou muito interessado em saber como é que os comentadores vão pronunciar o nome do país (us- ou uz-, -be- ou -bé-) e como é que vão dizer o nome do craque Odiljon Khamrobekov. Que role a bola e a língua.
* O autor escreve de acordo com a antiga ortografia


