Bilhete Postal de Diogo Cabrita: O silêncio

Escrito por Diogo Cabrita

O silêncio persistente pode funcionar como ruído absurdo quando perturba a realidade. O silêncio mais profundo é a circunstância da presença calada, voluntária, adaptada à negação da realidade em comum. Não querer dizer, não querer falar, não gostar de explicar, são fugas à eventual crítica, ao contraditório, à deceção da negativa. Aborrece que digam não? Aborrece que coloquem dúvidas? Cansa ouvir sucessivos não? Claro que sim. A destruição da tua ideia por vozes avisadas, por vidas vividas, interrompe o sonho, problematiza a criatividade e desengana. Era melhor a permitividade do sim constante? O convívio ganha com a condescendência que aligeira o sonho? Na realidade, uns temperos de frustração podem moldar as escolhas e podem ser o artesanato elaborado do melhor trabalho. Tudo funciona como a circunstância legislativa que baliza a criatividade. O sonho tem de ser coado na lei vigente, adaptado à boçalidade dos impostos e das vigilâncias institucionais. Assim funcionam os pais verdadeiros no caminho dos filhos. A irrelevância do progenitor constrói a condescendência deselegante, produz uma vaidade sem pudor e sem limites. Por tudo isto o silêncio é um amigo das relações, mas deve ser interrompido, deve ser cortado. Falar é preciso!

Sobre o autor

Diogo Cabrita

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