P – O que significa para José Luís Puerto este Prémio Eduardo Lourenço?
R – É uma valorização contínua do povo português, das pessoas humildes, mais pobres de Portugal, de Espanha, que foram criando e promovendo ao longo do tempo essas culturas tradicionais que têm tantos valores e que, hoje, uma sociedade globalizada, uma sociedade capitalista, está desfazendo de alguma forma o que é o ser humano.
P – Como nasceu este gosto, este amor pela literatura e pela poesia portuguesa?
R – O meu gosto pela literatura portuguesa e particularmente pela poesia portuguesa nasce de dentro. Eu, desde adolescente, que me sinto poeta, fui cultivando a poesia como criador. Depois, na universidade, estudei Filologia Românica, Língua e Literatura Portuguesa e uma das minhas grandes intuições, quando terminei os estudos, quando já era professor, foi aproximar-me da poesia portuguesa contemporânea. Tive a grande sorte – foi uma das grandes dádivas da minha vida – de contactar, de me ter conectado, ter traduzido, ter lido grandes poetas portugueses da segunda metade do século XX. Posso dar um exemplo. Houve um grande poeta extremenho, que já morreu, que quis traduzir Herberto Hélder, que era um poeta que não se deixava traduzir para espanhol, e este não deixou. A mim deixou. Traduzi o primeiro livro que o consagrou e que renovou a poesia portuguesa, “Colher na Boca”, numa editora de Barcelona. O que me surpreendeu foi que Herberto Hélder tinha uma correspondência constante comigo e, nas suas cartas, colocava sempre uma espécie de etiqueta de urgência, como se as cartas não pudessem chegar. Depois, tive uma grande amizade com o poeta hispanista José Bento, com Fernando Echevarria, Eugénio de Andrade, com os quais também tive uma correspondência extraordinária. Enfim, é uma grande sorte. Foi uma dádiva que recebi de Portugal. Tenho muitas cartas desses escritores portugueses e quero – mas tenho que pensar com calma – que essas cartas terminem numa instituição portuguesa. Quero dá-las a Portugal, porque é um legado português, cultural, literário, poético, muito importante, e parece-me que tem que ficar em Portugal.
P – A atribuição deste prémio ajuda cada vez mais a estreitar os laços entre Portugal e Espanha?
R – Sim, para mim, de alguma maneira este prémio é como um reconhecimento dessa intuição que tenho desde criança, de que Portugal e Espanha éramos países elos de uma mesma cadeia, de uma mesma realidade, de que estamos interconectados, que nossas pessoas têm os mesmos valores, a mesma cultura, que nossos grandes escritores, quando olharam para o outro lado da fronteira, entenderam-se, como aconteceu com Miguel de Unamuno e Guerra Junqueiro. Há outro escritor que admiro muito, que é José Saramago. Ele viveu na ilha de Lanzarote e um dos seus grandes amigos é o diretor da Fundação César Manrique de Lanzarote, Fernando Gomes Aguilera. Quando Saramago morreu, no avião militar que levou seu corpo para Portugal de Lanzarote, ele confessou-me que havia muitas semelhanças entre a biografia de Saramago e a minha e que teria gostado que o destino tivesse permitido que eu e Saramago nos encontrássemos para conversar. Infelizmente, nunca aconteceu.
Entrevista a José Luis Puerto, Vencedor do Prémio Eduardo Lourenço 2026



