Durante décadas, falar de energia nuclear em Portugal foi quase um tabu. A palavra bastava para encerrar debates, provocar receios automáticos e gerar respostas emocionais. Mas talvez tenha chegado o momento de fazer uma pergunta simples e questionar se será racional continuarmos a excluir uma solução energética apenas por preconceito ideológico ou memória histórica?
Portugal enfrenta hoje um problema estrutural que raramente é assumido com frontalidade. Somos um país energeticamente dependente. Dependemos do exterior para combustíveis, dependemos das interligações elétricas, dependemos das oscilações dos mercados internacionais e até dependemos do humor do clima. Quando não há vento suficiente, quando a seca limita a hídrica ou quando os preços internacionais disparam, a nossa vulnerabilidade torna-se evidente.
O apagão ibérico vivido há pouco mais de um ano foi um lembrete desconfortável de algo essencial, mostrando-nos que sem segurança energética não existe verdadeira soberania económica.
Durante anos, convencemo-nos de que bastaria investir em renováveis para resolver o problema. É verdade que Portugal foi pioneiro em várias áreas e merece reconhecimento por isso. O solar e o eólico são fundamentais e devem crescer, mas uma política energética séria não se constrói apenas com esperança meteorológica. O sol não brilha de noite e o vento não sopra por decreto.
A questão não é escolher entre renováveis e nuclear. A verdadeira questão é perceber porque razão insistimos numa falsa dicotomia quando os países mais avançados caminham precisamente no sentido inverso, ou seja, na complementaridade.
A França continua a apostar fortemente no nuclear. A Finlândia reforçou a sua capacidade. A Polónia, durante décadas dependente do carvão, avança agora para o nuclear. Até países tradicionalmente prudentes estão a reconsiderar posições, não por romantismo tecnológico, mas por pragmatismo estratégico e por isso, o debate já não é ideológico, mas sim geopolítico.
Num mundo marcado pela guerra na Ucrânia, pela competição energética global e pela crescente pressão sobre a eletrificação da economia, com cada vez mais veículos elétricos, centros de dados, inteligência artificial e indústria a depender exclusivamente de fontes intermitentes parece menos uma estratégia e mais um ato de fé.
Portugal não precisa necessariamente de uma gigantesca central como as do século XX. O futuro pode passar pelos pequenos reatores modulares, os chamados SMR (Small Modular Reactors), mais seguros, escaláveis e potencialmente instaláveis com menor impacto territorial. Ignorar essa discussão é condenarmo-nos à irrelevância tecnológica.
Naturalmente, haverá quem invoque acidentes históricos. Mas também houve acidentes ferroviários e ninguém se propõe abolir comboios, da mesma forma que também houve e há desastres aéreos e ninguém defende o fim da aviação. A questão nunca é a ausência absoluta de risco, mas sim, saber gerir o risco com tecnologia, regulação e exigência.
Há ainda uma contradição raramente assumida no debate português. O nosso país comporta-se como se pudesse viver num “mundo sem nuclear”, quando a realidade geográfica diz precisamente o contrário. Em Espanha, a central nuclear de Almaraz funciona a cerca de 100 quilómetros da fronteira portuguesa, junto ao rio Tejo, sendo há anos objeto de preocupação e discussão política pelos seus potenciais impactos transfronteiriços. O paradoxo é evidente: aceitamos passivamente o risco sem controlar a decisão, sem beneficiar da tecnologia, sem criar emprego qualificado e sem garantir autonomia energética, ou seja, convivemos com o risco, mas abdicamos totalmente da soberania sobre ele.
Talvez o maior risco seja outro, muito mais nefasto, que é o de continuarmos dependentes, vulneráveis e sem coragem para pensar o futuro.
Portugal não tem de construir amanhã uma central nuclear, mas tem obrigação de começar hoje uma discussão séria, técnica e descomplexada.
Energia é independência.
Energia é competitividade.
Energia é soberania.
E soberania raramente se conquista sem coragem.
* O autor escreve ao abrigo dos antigos critérios ortográficos


