P – A Maria João tem uma forte ligação à Guarda. Que memórias guarda da cidade e como influenciaram o processo de escrita deste livro?
R – É a minha cidade quase berço, porque venho para cá todos os anos, desde 1962, passar um mês na aldeia em Pêro Soares. Portanto, eu não me lembro de mim sem vir para aqui, é uma ligação quase umbilical. E depois senti esta responsabilidade de não deixar uma história morrer inédita, neste caso, o meu bisavô Lopo de Carvalho, aqui da Guarda, mas já fiz do meu outro bisavô da Mizarela com 800 páginas. Por isso, acho que é um dever meu como escritora deixar para a posteridade a história dos meus bisavós e a importância que tiveram na construção desta cidade e na construção da minha personalidade.
P – Como surgiu a decisão de escrever sobre Lopo de Carvalho? Foi uma escolha natural, por ser seu antepassado?
R – Não. Isto foi uma encomenda da Câmara da Guarda através do doutor Luís Ferreira, do Serviço de Pneumologia, porque já existem uma série de livros sobre outros pneumologistas e outros médicos da cidade e faltava este, com a vantagem, ou não sei, pelo menos com a responsabilidade de ser meu bisavô. E por isso, talvez eu conseguisse contar a história de uma maneira mais emotiva do que uma pessoa de fora. Foi isso que tentei fazer, neste caso com muito mais raízes do que asas, ou seja, a imaginação aqui é só a forma de contar a história porque todos os factos são comprovados e reais e, com acesso às fontes. É um processo um bocadinho diferente do que foi feito para o outro bisavô.
P – Sentiu alguma responsabilidade acrescida por estar a escrever sobre alguém da sua família?
R – Sim, sobretudo a questão ética de desvendar alguns segredos que não sei se ele queria que eu desvendasse. Sendo a sua 14ª bisneta, é uma dúvida que me assiste porque de facto há aqui um ponto de viragem na história desde o minuto em que eu descobri o que estava por de trás, mas resolvi contar porque achei que tinha de prestar este acerto de contas com a realidade e com a figura que ele foi. Não quero torna-lo num herói, para mim será sempre um herói porque é meu bisavô, mas tinha fragilidades e era um pecador, como toda a gente.
P – Foi fácil equilibrar o rigor histórico com o envolvimento emocional?
R – Não! Essa é a parte difícil. Já no outro livro, do meu outro bisavô, que se chama “O Bisavô”, editado pela Leya, pela Oficina do Livro, eu já tinha já ficado com um fraquinho por este bisavô porque sou muito parecida em muitas coisas. No gosto pela investigação, pelo estudo, pelo rigor, o não desistir das coisas. Tudo isso são traços genéticos, talvez, mas que eu me revejo totalmente nele e por isso, fiquei muito contente quando me surgiu este desafio porque é mesmo bom podermos entregar a dois, três, quatro, seis meses, não sei quanto tempo é que demorou, debruçar-nos sobre esta figura e percebermos que tem tudo a ver connosco e que é uma homenagem que lhe prestamos, também.
P – O que espera que os leitores da Guarda e da região sintam ao ler esta biografia?
R – Admiração. Acho que as pessoas vão sentir admiração e acho que agora como temos tão presente o Covid-19, isto foi uma espécie, na tuberculose contagiava-se precisamente como nós nos contagiámos com o Covid e, por isso, é muito presente hoje em dia. Se isto fosse feito antes da pandemia era mais difícil das pessoas perceberem esta realidade. Agora, pensar que a Guarda triplicou o número da população assim que abriu o sanatório e percebermos como toda a gente se contagiou, para nós agora faz todo o sentido porque vivemos isto.
P – Que mensagem gostaria de deixar a quem nunca ouviu falar de Lopo de Carvalho, mas que possa encontrar neste livro uma inspiração?
R – Um homem que nunca desistiu dos seus sonhos, fossem quais fossem as contrariedades.
Perfil
Maria João Lopo de Carvalho
Escritora da obra “Lopo de Carvalho – O Quanto Dele se Guarda”
Idade: 63 anos
Naturalidade: Lisboa
Profissão: Escritora
Currículo (resumido): Escritora de romances e livros infantis, licenciada em Línguas e Literaturas Modernas pela Universidade Nova de Lisboa, professora de Português e de Inglês, copywriter em publicidade, assessora no Gabinete de Vereação da Educação Social do Município de Lisboa, fundadora a Know How, cronista na revista Pais & Filhos e na Xis.
Livro preferido: Não tem
Filme preferido: “A Escolha de Sofia”
Hobbies: Ler



