Íamos no carro e alguém pôs uma cantora que tinha descoberto há pouco. Chama‑se Inga Rose. É jovem, canta bem, tem uma voz que se agarra ao refrão como quem se agarra a um corrimão. Alguém no banco disse que estava a ouvir muito, ultimamente. Alguém do outro lado observou, timidamente, que a voz soava um bocadinho estranha. Uma paragem depois, fomos procurar. Inga Rose não existe. Foi feita por um tal Dallas Little, algures na Carolina do Sul, num programa de música por inteligência artificial. Chegou este ano ao número um do iTunes com uma canção chamada Celebrate Me. Nunca cantou uma nota. Não vai chegar atrasada ao próximo concerto. Não tem próximo concerto.
O caso não é único. O Deezer, plataforma francesa que ao contrário de outras se dá ao trabalho de contar, diz que 34% da música que hoje se lá publica é gerada por IA. Há dezoito meses eram 5%. Uma banda folk chamada The Velvet Sundown teve quase 1,4 milhões de ouvintes mensais no Spotify no ano passado sem existir. Uma neo‑soul de nome Sienna Rose tem 3,6 milhões, três canções no Viral 50, e também não existe. Em playlists muito ouvidas de música ambiente, do tipo Peaceful Piano ou Peaceful Retreat, cinco em cada cem nomes correspondem a pessoas reais. Os restantes são pseudónimos comprados à peça pela plataforma, ou saídas diretas de uma máquina que trabalha por dez cêntimos à hora e sem contrato coletivo.
A parte económica é a que ninguém quer explicar em direto. As plataformas de streaming pagam royalties a partir de um bolo comum, o total do que recebem em subscrições e publicidade num dado mês, dividido depois pelo número total de reproduções. Se metade dessas reproduções passa a ser de canções compradas por cinquenta euros à cabeça, ou de canções que uma máquina gerou de graça a partir de vozes humanas que nunca lhe deram autorização, o resto do bolo continua a ir para os artistas de verdade, é certo, mas a fatia adelgaça. Traduzido: um músico independente, hoje, está a pagar do próprio bolso para diluir a plataforma onde publica. Está a subsidiar a concorrência que não come, não bebe, não adoece e não morre.
Depois há a questão do treino, que é a mais desconfortável de todas. As máquinas não caem do céu. Foram treinadas com milhões de músicas feitas por pessoas, muitas delas ainda vivas. Poucas foram consultadas. Nenhuma foi paga. Paul McCartney, Kate Bush, Damon Albarn, Annie Lennox e outros lançaram no ano passado um álbum silencioso, quarenta e cinco minutos sem uma nota, em protesto contra este pequeno detalhe. É uma resposta artística forte, e ficou por saber se a tempo. A máquina, entretanto, já aprendeu com o silêncio deles.
O que me perturbou mais, aliás, não foi o algoritmo. Foi a reação dentro do carro. Uma das pessoas gostava mesmo, tinha a canção há dias na cabeça. As outras, quando perceberam o que era, ficaram desconfortáveis, não com a música, que continuava igual, mas com a ideia de estarem a aplaudir uma máquina que aprendeu a cantar copiando quem canta. E, no entanto, a pergunta que ficou a pairar foi menos moral e mais resignada: e se for isto, a partir de agora? A partir de que sexta‑feira é que as rádios começam a passar Inga Rose sem avisar, entre a Amália e o último single português? Porque o passo seguinte não é hipótese, é calendário.
Está a acontecer aos ilustradores, aos designers, aos fotógrafos, aos videógrafos, aos cartoonistas, pessoas que abriram o email e descobriram que o cliente agora tem um programa que faz aquilo em dez segundos e não pede férias. Será a música a próxima a chegar à festa? E a pergunta, no fundo, é sempre a mesma, e nenhuma delas é técnica: queremos mesmo trocar o olhar de uma pessoa, com a sua vida, os seus enganos, a sua maneira torta de ver o mundo, pela média estatística de tudo o que já foi feito? A máquina não tem ponto de vista. Tem histórico. E há uma diferença entre as duas coisas que nenhum refrão bem construído consegue disfarçar.
Enquanto isto acontece nas colunas dos carros e nas playlists domésticas, a Covilhã fez uma coisa modesta e certeira: pôs quatro artistas reais em quatro largos reais, em quatro sextas de agosto. Dia 7, Minta & The Brook Trout, atrás da Câmara. Dia 14, Rita Cortezão, no Largo de Santa Marinha. Dia 21, Margarida Campelo, na Rua José Caetano Júnior. Dia 28, Filipa Bidarra, no Jardim Público. Todos os concertos às 21h30, precedidos de visitas guiadas encenadas ao centro histórico, o que é o oposto quase perfeito de um algoritmo. O cartaz é ainda inteiramente feminino, o que numa programação de verão de câmara não é assunto banal, embora se comente pouco.
Aquilo que estes concertos oferecem, e que nenhuma máquina consegue oferecer, é a hora antes de começar. O soundcheck a atravessar a praça, o casal que já veio o ano passado, a cadeira desdobrável que alguém teve o cuidado de trazer, a pausa entre canções em que a cantora bebe água e diz uma frase que amanhã já será outra. É pouco, e é tudo. É aquilo que uma cidade ainda pode oferecer a quem escolhe estar. É também aquilo que o algoritmo, apesar de tudo, ainda não sabe fazer.
Vamos ouvindo as vozes que não existem, no carro, sem grande drama, é verdade. Mas se em agosto sobrar uma sexta livre, vale a pena passar por um destes largos. As artistas que lá vão cantar, além de existirem, ainda cumprimentam à porta do café antes de subir ao palco.
Sugestões deste mês:
Verão no Centro Histórico da Covilhã – quatro concertos, sempre às 21h30, com visita guiada encenada:
7 de agosto — Minta & The Brook Trout, atrás da Câmara
14 de agosto — Rita Cortezão, Largo de Santa Marinha
21 de agosto — Margarida Campelo, Rua José Caetano Júnior
28 de agosto — Filipa Bidarra, Jardim Público
Docs de apoio:
Inteligência artificial na música: este génio já não volta para dentro da lâmpada. Público, 17 de julho de 2026.
Deezer — declarações públicas sobre deteção de música gerada por IA e o caso Sienna Rose (2026).
McCartney, P., Bush, K., Albarn, D., Lennox, A., et al. (2025). Is This What We Want? [Álbum silencioso de protesto].
agosto, 2026 Romeu Curto


