1 – A Inteligência Artificial (IA) veio dar uma nova vida a uma das muitas metanarrativas que têm entretido a humanidade: o cientismo. Durante milénios, a solução para todos os males e a promessa de um futuro melhor (terrestre ou celestial) foram monopólio das religiões. A partir de meados do século XIX, a ciência, de mãos dadas com a sua aplicação prática (a tecnologia), passou a reivindicar o seu quinhão. A IA apresenta-se hoje como uma panaceia para muitos dos problemas que afetam as sociedades humanas. Traz também consigo a promessa de um mundo melhor, que passa pela substituição massiva da força de trabalho humana.
2 – O aparecimento dos “Large Language Models” (LLM) constituiu o primeiro passo para a adoção generalizada da IA. No entanto, os dois passos que se seguem poderão ser ainda mais significativos. Um deles é a chegada da “Artificial General Intelligence” (AGI) e a proliferação de agentes de IA, que permitirão aos novos programas funcionar sem necessidade de comandos humanos, aprendendo com a experiência para criarem versões melhoradas de si mesmos. O outro é a confluência da IA com a robótica e com dispositivos sensoriais, que permitirá que as máquinas possam tomar o lugar do homem na execução de muitas atividades de índole mais física.
3 – Nos próximos três a quatro anos, tudo indica que a utilização mais relevante da IA continuará a verificar-se ao nível de profissões e atividades qualificadas, com tendência também para a generalização e o aprofundamento do seu uso no ensino e na investigação. Em ambos os casos, a adoção da IA tem sido realizada com pouca ou nenhuma regulamentação e sem uma noção clara, por parte da grande maioria dos decisores políticos, da dimensão da mudança que está em curso.
4 – Ao contrário do que foi anunciado vezes sem conta, não é claro que a IA esteja a contribuir para a valorização de competências como o pensamento crítico, a inteligência emocional e a empatia. Tanto mais que até os modelos menos avançados de LLM são capazes de executar e simular essas competências.
5 – A IA está a reduzir a prática da “tentativa e erro” nos processos de desenvolvimento humano, ensino-aprendizagem e melhoria contínua no trabalho. Esta eliminação progressiva terá consequências imprevisíveis. Ironicamente, alguns dos modelos mais avançados de IA continuam a produzir muitos erros que, todavia, insistem em partilhar com os utilizadores de uma forma categórica.
6 – Os desenvolvimentos no âmbito da IA estão a suceder-se a um ritmo tão acelerado que se torna difícil a qualquer pessoa acompanhar tudo o que de novo e relevante surge diariamente. Pelo mesmo motivo, a capacidade de adaptação das sociedades às sucessivas mudanças já foi claramente ultrapassada. Apesar disso, são poucos os países que se preocuparam em disponibilizar cursos de literacia em IA aos seus cidadãos e organizações setoriais ou em criar institutos especializados na recolha e análise de dados sobre o impacto transversal desta tecnologia.
7 – A IA tem vindo a criar um desequilíbrio substancial no financiamento de projetos de investigação e de empreendedorismo. Por um lado, tem havido uma captação de investimento desproporcional entre a IA e outras tecnologias inovadoras, com claro benefício para a primeira. Por outro, as demais tecnologias disruptivas (como a blockchain) e áreas estratégicas da informática (como a cibersegurança) têm sido fortemente condicionadas pela necessidade de integração e compatibilidade com sistemas de IA.
8 – As entidades que lideram a investigação e a comercialização de IA são maioritariamente do setor privado. A existência de várias organizações a desenvolver investigação e a comercializar produtos baseados em IA constitui simultaneamente uma garantia antimonopolista e uma salvaguarda contra um eventual controlo estatal excessivo. Mas, pelo mesmo motivo, há preocupações legítimas relacionadas com a influência negativa da IA num possível agravamento das desigualdades entre nações e no seio das sociedades. Importa também não descartar a possibilidade de essas organizações virem a assumir uma postura corporativa e de, eventualmente, a salvaguarda dos seus interesses entrar em rota de colisão com a defesa do bem comum.
9 – A maioria dessas entidades privadas é norte-americana (e. g. Apple, Amazon, Anthropic, Google, OpenAI, Meta, Microsoft, NVIDIA e xAI). Esta realidade sugere que os EUA estão a aproveitar a revolução da IA para cimentar a sua liderança em termos de avanço tecnológico e consolidar ainda mais o seu estatuto de superpotência no panorama geopolítico internacional.
10 – Se for verdade que a IA nos irá colocar diante de uma tempestade existencial, então podemos agradecer aos grandes vultos de outra metanarrativa as fórmulas para a enfrentar. O romantismo foi, e continuará a ser, a maior mudança cultural e de consciência da humanidade. Foi esta revolução interminável que abriu as portas a um leque inesgotável de posicionamentos do ser humano perante tudo aquilo que, tangível ou intangível, real ou imaginário, se lhe possa apresentar. E não foi necessário nenhum supercomputador quântico ou programa de software avançado. Apenas papel, tinta e uma vontade genuína de expressar o “eu” profundo.
* pedrorgfonseca@gmail.com


