O regresso às aulas e as perguntas que ficam

Escrito por Sofia Pereira

Regressar à escola deveria ser um ritual de esperança: corredores novamente povoados, mochilas às costas, professores diante das turmas e famílias a confiar à escola aquilo que têm de mais precioso — o futuro dos filhos. Mas, por estes dias, o ano letivo começa com demasiadas interrogações.

Depois dos problemas no processo de digitalização das provas de acesso ao ensino superior, que obrigaram a perturbar o ingresso no ensino superior e o calendário do início das aulas do secundário, fica uma pergunta incómoda: estaremos a modernizar a Educação ou apenas a digitalizar as suas fragilidades?

Os resultados do PISA vieram acrescentar outra inquietação. Portugal registou uma quebra expressiva em Matemática, Leitura e Ciências. Mais do que a tentação de proclamar que “recuámos vinte anos”, importa reconhecer o sinal de alarme: aquilo que durante décadas parecia uma trajetória de aproximação aos melhores sistemas educativos deixou de ser uma certeza.

E há um problema ainda mais elementar: faltam professores. Há escolas onde algumas disciplinas começam sem docente colocado, enquanto a profissão envelhece e poucos jovens parecem dispostos a abraçar uma carreira que perdeu reconhecimento, estabilidade e atratividade.

Na Guarda, estas dificuldades assumem uma dimensão particular. Num território marcado pelo envelhecimento demográfico e pela interioridade, cada professor que falta, cada funcionário que não chega e cada serviço educativo que se fragiliza pesa duplamente. Uma escola do interior não é apenas um lugar onde se ensina: é uma das últimas âncoras de coesão social de muitas comunidades – depois de fecharmos as nossas aldeias, com o encerramento perverso das escolas -, é uma réstia de esperança no futuro, é um último sinal de vida!

Mas existe ainda uma questão que raramente ocupa o centro do debate: quanto custa, hoje, educar um filho?

Creche, ATL, refeições, transportes, material escolar, explicações, atividades extracurriculares, propinas, alojamento e tantas outras despesas transformaram a educação numa pesada parcela do orçamento familiar. Para quem estuda longe de casa, o quarto e a alimentação podem representar uma segunda renda. E quando a inflação corrói salários e poupanças, a promessa constitucional de igualdade de oportunidades começa a parecer, para muitas famílias, uma promessa cada vez mais distante.

Sebastião da Gama escreveu que «pelo sonho é que vamos». Talvez seja essa a essência da escola: ensinar-nos a ir além da circunstância, a imaginar um futuro que ainda não existe.

Mas nenhum sonho coletivo sobrevive quando faltam professores, quando os resultados declinam e quando tantas famílias começam a perguntar-se se conseguirão suportar o preço de educar os seus filhos.

O regresso às aulas é, por isso, muito mais do que o início de um novo ano letivo. É um espelho. E o que nele vemos deveria inquietar-nos.

Porque uma sociedade que não consegue proteger a escola acaba, inevitavelmente, por hipotecar o futuro que nela deposita.

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Sofia Pereira

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