A manchete de O INTERIOR da semana passada é tudo menos surpreendente: as “Beiras e Serra da Estrela continuam abaixo da média nacional em desenvolvimento regional”. O problema é que, apesar dos diagnósticos repetidos, a região continua a gastar dinheiro, muito dinheiro, em falsas boas ideias.
A região perde população, perde jovens, perde massa crítica, perde investimento produtivo. Falta escala económica, falta visão estratégica e falta capacidade para criar riqueza duradoura. Em contrapartida, multiplicam-se festas, festivais, feiras temáticas e eventos de consumo rápido.
Mais do que de prioridades, há aqui um problema de foco.
Quando uma região estruturalmente frágil continua a canalizar recursos públicos para eventos efémeros, importa perguntar: estamos a investir no futuro ou apenas a comprar entretenimento de curto prazo?
O caso de Pinhel é paradigmático. Segundo a revista “Sábado”, de 16 de junho (ainda bem que há investigação jornalística nacional), o município aplicou quase meio milhão de euros numa feira medieval, incluindo 75 mil euros para criar a “narrativa” do evento. Convém repetir: meio milhão. Se os autarcas tivessem em mente o interesse do seu concelho seguramente não fariam esta gestão.
Por comparação, o São João do Porto – um dos maiores eventos populares do país, com impacto económico real, projeção nacional e internacional e capacidade de atrair centenas de milhares de pessoas – tem um orçamento global de cerca de 800 mil euros. A comparação é inevitável – e desconfortável.
Numa região onde faltam empresas, emprego qualificado, investimento industrial e massa crítica, o dinheiro público tem de ser aplicado com critério, racionalidade e visão estratégica. Tem de servir para criar valor, fixar pessoas, atrair investimento e gerar riqueza.
Não se combate a desertificação com fogo-de-artifício.
Em jeito de ironia, podia dizer-se que hoje há mais feiras medievais, como a festejada em Pinhel, do que havia na própria Idade Média. O problema é que, enquanto encenamos castelos, cavaleiros e mercadores, a economia real continua sem comerciantes, sem indústria e sem crescimento.
As festas têm o seu lugar. A cultura, o património e a animação territorial são importantes, mas uma região não se desenvolve à base de festas e festinhas caras. Sem investimento produtivo, sem estratégia de criação de riqueza, corremos o risco de transformar o interior num palco permanente de celebração… da sua própria estagnação.
* Presidente do Conselho Distrital da SEDES Guarda e da Assembleia de Freguesia da Guarda


