Portugal tem uma longa história de oportunidades perdidas sobre carris. Décadas de adiamentos, decisões suspensas e debates intermináveis transformaram a modernização ferroviária numa promessa recorrente, tantas vezes anunciada como sucessivamente adiada. Por isso, o arranque das obras do primeiro troço da alta velocidade entre Porto e Oiã, esta semana, representa muito mais do que o início de uma empreitada: é, finalmente, um sinal de que o país pode começar a recuperar o tempo perdido.
Como escreveu Miguel Torga, «o universal é o local sem paredes». Também a ferrovia deve ser entendida assim: uma infraestrutura que aproxima territórios, abre horizontes e combate o isolamento.
É neste contexto que a contestação de Luís Filipe Menezes, presidente da Câmara de Gaia, à localização da futura estação de Santo Ovídio merece reflexão. Os impactos de uma obra desta dimensão sobre a cidade, o comércio e a mobilidade dos cidadãos devem ser ponderados. Mas há uma diferença essencial entre exigir soluções para minimizar constrangimentos e reabrir, no momento em que as máquinas começam a trabalhar, um debate que ameaça comprometer um investimento amadurecido ao longo de anos.
A política não pode ser um exercício permanente de protagonismo, nem o interesse público ficar refém de disputas de circunstância. Se cada grande obra nacional voltar à estaca zero perante cada contestação tardia, Portugal continuará a ser um país onde se anuncia muito, se discute interminavelmente e se constrói tarde demais. E é assim em todas as empreitadas e em todos os locais: o país está cheio de “velhos do Restelo” que perante a mudança são sempre contra; gente que quer parar o progresso com as mãos; oposições que só ambicionam o “quanto pior melhor”; vozes retrógradas que quando falam de futuro só veem passado…
Mas a alta velocidade não pode ser apenas uma história de litoral. O futuro ferroviário português exige que se olhe para o interior com a mesma ambição. A ligação Aveiro–Viseu–Guarda–Vilar Formoso, prevista no Plano Ferroviário Nacional, constitui uma oportunidade estratégica para aproximar a Beira Interior do litoral, dar resposta à histórica ausência de comboio em Viseu e abrir um corredor de ligação a Espanha, designadamente a Salamanca, integrando Portugal na rede ferroviária europeia.
Para a Guarda, para Viseu e para toda a região Centro, esta ligação não é um luxo nem uma reivindicação periférica: é uma condição de coesão territorial, competitividade e futuro. Não basta encurtar distâncias entre Lisboa e Porto; é preciso impedir que o interior continue distante de tudo.
A ferrovia não resolve, por si só, os problemas do país. Mas um país que não investe na mobilidade condena-se à imobilidade económica e social.
Começar é importante. Continuar, cumprir prazos e estender a ambição ao interior será decisivo. Portugal já perdeu demasiado tempo à espera do comboio do progresso. Não pode agora permitir-se fazê-lo parar na primeira estação.


